terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O mata-cachorro

Preocupe-se com o futuro; é onde passarás o resto da vida.
No interior, antes do surgimento da televisão, a chegada de um circo à cidade era motivo de grande alegria para todos nós. Nem bem chegava e já desfilavam pelas ruas da cidade com seus bailarinos, palhaços, malabaristas, banda de música e, é claro, os bichos: elefante, zebra e o mais esperado de todos, o leão.
A armação da lona sempre foi um espetáculo à parte. Eles sempre escolhiam um terreno plano, razoavelmente limpo, que era, é claro, usado pela molecada como campo de futebol. Ficávamos todos sem o futebol, mas ninguém se importava, afinal a presença do circo compensava.
O pessoal do circo, poucos dias antes da sua chegada, começava a anunciar na rádio local que estava contratando homens para ajudarem na montagem do “grande circo” como eles se auto denominavam, não importando fosse ele pequeno ou grande, era sempre o “grande circo” que sempre oferecia o “maior espetáculo da terra”. E nós sempre achávamos que era, não fazia mal se o trapezista usava rede, ou se a lona era furada. De qualquer modo, o que importava era o circo e nada mais.
Ajudávamos todos na montagem: o elefante puxando as cordas para levantar o mastro central, os homens esticando a lona, e nós, a molecada, colaborávamos dando palpites. Ficávamos todos muito cansados de torcer e passar o dia no sol. Valia a pena, afinal estávamos todos “ajudando” na montagem do circo!
Dos empregados contratados em cada cidade para esse trabalho, o mais barato, o menos qualificado, era contratado para todo o período em que o circo permanecia na cidade, inclusive para o desmonte. Nesse meio tempo, esse peão, como se diz no interior, ficava com a incumbência de matar os cachorros!
A cachorrada sempre foi uma enorme dor de cabeça para o domador do circo, pois, como se sabe, o leão exala um odor muito forte e os cachorros da vizinhança vão até o circo para latir contra o enjaulado bicho. A barulheira provocada pelos cachorros impedia o pobre coitado de dormir e o domador não se animava a dar o espetáculo com um leão mal humorado!
Para evitar um acidente de grandes proporções, ver a cabeça do domador sendo engolida pelo rei dos animais durante a função (nome que se dava ao espetáculo circense), a direção do circo mantinha ocupado o desqualificado peão.
Assim, ficou cunhada a expressão “mata-cachorro” para designar o mais desqualificado dos peões.
A recente greve dos caminhoneiros que assolou o país, colocou à mostra que estamos todos à mercê de mata-cachorros, acho que é assim o plural, em todos os níveis. Do jornalista que confunde radio-amador com faixa do cidadão, do Ministro que jura que sabia da greve, mas foi de férias para a Disney assim mesmo, dos líderes sindicais que confessaram sua estupefação ante a força dos liderados sem líder, da sociedade que se flagrou impotente, e até do Sr. Presidente, que suspendeu a obediência à lei de pesagem dos caminhões, por dois meses, como se nesse período o patrimônio do povo não fosse estragado pelo excesso de peso!
Ficamos todos indignados com o jornalista que confundiu os radio-amadores com operadores de rádio da faixa do cidadão que operam sem licença, clandestinos portanto. Estamos todos mandando e-mail, fax e outros recados para a direção do jornal contra o jornalista mata-cachorro.
Devemos não só alertar o jornal, devemos alertar, através das nossas entidades de classe, a invasão dos mata-cachorros (PX) nas nossas faixas. Devemos cobrar dos nossos governantes uma enérgica e constante atuação contra os invasores, para que não nos tornemos, por omissão, nós próprios mata-cachorros.
Arrectis Auribus
de PY2YP – Cesar

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