domingo, 9 de julho de 2017

Arengas e lenga-lengas

Muito antes de nós,
Muito antes dos nossos avós
Já lecionava aos faraós,
Prosperina de Queiroz.

Era assim, em 1960, que encarávamos a fera. Dona Prosperina, vetusta e empertigada senhora, creio que andava lá pelos seus 70 e poucos anos - naquela época as pessoas podiam trabalhar até quando quisessem ou tivessem disposição - lecionava desenho para a turma do segundo ano ginasial. A velha senhora, antes do início da aula, percorria todas as fileiras examinando as mãos dos alunos, todos nós ficávamos com as palmas de ambas as mãos estendidas e ao menor indício de sujeira éramos colocados para fora da classe, severamente admoestados e penalizados em 0,5 ponto na próxima prova. Não pode sujar o papel, dizia ela, o aluno tem que estar limpo para desenhar e para qualquer outra coisa que faça. Limpeza nas mãos e no caráter, falava enquanto brandia uma régua de madeira, pesada, com um dos lados com uma camada metálica para dar mais rigidez; nunca se soube de um único aluno que a desafiasse. A empertigada velhota poderia facilmente desancar o ousado. Eram outros tempos, tempos em que as pessoas tinham vergonha, caráter, honra e orgulho do que faziam. Se alguém ousasse mentir para dona Prosperina estaria condenado a passar mais um ano com ela, o infeliz seria reprovado e na segunda reprovação o fantasma da jubilação se tornaria realidade. Ser jubilado era o mesmo que ser expulso do ginásio para nunca mais voltar. Ah, sim a escola era pública, chamada de ginásio do estado, ou simplesmente estadão, assim mesmo, como o jornal. Quem conseguisse completar o ginásio e o curso científico no estadão, sem uma única reprovação, podia se considerar um vencedor.
Os tempos mudaram, ficaram modernos, o ensino público foi alvo de sucessivos e bem sucedidos ataques por parte das autoridades, as novas teorias pedagógicas, os discípulos do grande enganador francês, monsieur Piaget, atingiram o alvo com assustadora precisão: desmontaram e alquebraram algumas gerações que vagam pela sociedade sem norte, sem parâmetros e sem vergonha. O ensino atual já não molda caráter, não norteia comportamentos e, pior, não pune os desalinhados. E isso vale para todas as atividades: comerciais, empresarias, políticas, cotidianas e, como não podia deixar de ser, para o nosso inofensivo DX.
Os operadores sem formação moral e escolar suficientes, sem norte comportamental, os desnorteados saem por aí fabricando QSLs, forjando QSOs impossíveis e por não terem formação educacional básica, confundem horários, latitudes e longitudes além de cometerem toda sorte de trapalhadas nas suas falcatruas. A pândega desfaçatez poderia ser rotulada de cômica, não fosse tão sem-graça. Os esquerdopatas dizem que esse tipo de gente é resultado do capitalismo opressor, da sociedade perversa e por aí vai. Até onde vai não se sabe. O fato, triste, diga-se, é que essa gente está a aumentar. Sabe-se hoje de vários e vários operadores que assim agem. Quando pegos na mentira insistem nas suas fantasiosas versões. Claro, não lhes resta outra alternativa senão negar o óbvio a mais não poder; não conseguem convencer quem quer que seja, todavia.
O desconhecimento é tamanho, que um dos larápios, ao tentar justificar um QSO com um país da zona 29 disse tê-lo ouvido porque tinha uma beverage apontada para a cidade do Cabo. O nosso planeta, para seu infortúnio, é esférico; não é preciso ser versado em ortodromia para saber que a beverage deveria estar apontada bem mais para o sul. Outro pândego jura ter falado em 80 metros com uma estação da zona 28 duas horas após o nascer do sol, ao ser confrontado reduziu o horário em três horas para ficar na zona escura daqui; esqueceu-se, ou não sabia, que ao fazer isso o DX ficou duas horas antes do pôr do sol; nas palavras de um conhecido operador de 160m: a zona escura é como cobertor curto, ao cobrir a cabeça os pés ficam de fora... Ah sim, só para constar, à hora dita o DX estava em 12 metros; até onde se sabe não há harmônico gerado em 80 que alcance 12 metros! Um outro, este sim, um falsário, meteu-se a gráfico e imprimiu um QSL mas ao escrever o nome do operador errou na grafia; ao ser consultado, o DX apenas disse: "eu sei escrever meu nome!" As histórias são inúmeras, algumas engraçadas são contadas e recontadas nos encontros e feiras onde os operadores caem em gargalhadas homéricas expondo ao ridículo os farsantes, tudo regado a muita cerveja.
Ao tempo em que eu verificava os QSLs para o WAZ, um desses gaiatos veio aqui em casa com o pacote completo, iria pedir o terrível 5BWAZ, diploma dos mais complicados e que exige muita dedicação. A verificação foi normal até chegar nas zonas difíceis em 80m. Notei que o operador começou a ficar um tanto quanto tenso e pedi que ele me acompanhasse até a estação, abri o DX-Atlas para simular o dia e hora de um QSO da zona 24. Não deu outra, o QSO estava com uma hora de sol na estação do DX. Ele não teve dúvida, sacou um envelope da pasta, e mostrou outro QSL mas desta vez o horário era após o nascer do sol daqui; sacou um terceiro QSL e novamente horário impossível. Ao final da verificação rejeitei as zonas 24, 29, 30 e 40. Disse a ele: encaminhe os 200 cartões para o manager nos USA porque eu não vou assinar. Ah, vou avisar o manager da CQ para verificar os horários das zonas que rejeitei, completei. Ele demorou quase 10 anos para pedir o diploma diretamente nos USA. Esse tipo de comportamento me fez desistir das atividades de verificação dos diplomas da ARRL e da revista CQ, simplesmente me cansei de tanta pilantragem.
O que leva alguém a se comportar dessa maneira? Ao pedir para que outrem faça o QSO por procuração está assinando a declaração de completa incompetência, de falta de capacidade técnica, de falta capacidade operacional e de falta de vergonha. Para quê? Para depois de constar no log jactar-se da sua própria e infeliz incapacidade? Uma coisa é fazer esse tipo de bobagem em bandas altas onde ninguém dá a menor importância, seja o QSO com um P5 ou um 4W em 10 ou 12 metros, mas agir assim nas bandas baixas é o mesmo que dar um tiro no pé. Os operadores sérios das bandas baixas se comunicam durante as expedições, trocam informações de ruídos, de horários mais prováveis e comentam que trabalharam estações próximas às áreas de interesse. É nessas horas que os tolos são desmascarados, sempre foi assim. Foi assim com SU, 9N, 4W e várias outras operações difíceis. Mas, há algo novo no ar: as novas tecnologias.
Eu não estive presente, mas me foi dito que na última feira de Dayton foi falado que o LOTW e SDR estão servindo de ferramentas para auditoria em vários diplomas do DXCC, principalmente nos diplomas de 80 e 160 metros. Já há vários casos consumados e exemplos horríveis como o de uma estação que forjou QSOs com 150 (cento e cinquenta) países em 160 metros. Pelo que foi falado a cassação começará em breve. Segundo consta há alguns brasileiros envolvidos. Se isso realmente acontecer a ARRL estará saldando uma dívida antiga para com os operadores sérios e resgatando a credibilidade do DXCC. Aguardemos.
73 DX de PY2YP - Cesar

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Antena solar

Há algumas semanas recebi um e-mail de um amigo indonésio de longa data, meu primeiro QSO com ele foi em 1978 e vez por outra trocamos alguns QSOs em 20 metros CW. Ele esteve certa feita em São Paulo e tomamos uns tragos juntos discutindo a propagação entre Indonésia e São Paulo.
Beni, é esse seu nome, sabe do meu grande interesse pelos estudos de propagação principalmente em 80 metros que é de longe minha banda preferida. Quando comecei a trabalhar o 5BWAZ em 1997 ele me ajudou muito apontando as frequências menos ruidosas para que eu pudesse trabalhar as zonas 24, 28 e 29, que são algumas das zonas complicadas em 80. Beni foi o primeiro QSO com a 4 square na zona 28, eu havia escrito para ele contando dos meus estudos em montar uma antena grande e ele ficou vivamente interessado no resultado. Quando marcamos o sked para esse QSO discutimos bastante para marcar o horário. Para complicar um pouco, o QTH do Beni é na extremidade leste da Indonésia e o path para lá passa em cima do polo sul magnético, é basicamente a mesma propagação do Timor. Como sabemos, de meados de agosto a meados de maio a propagação é exclusivamente ao nosso entardecer, por outro lado, de maio a agosto, a propagação pode, em casos excepcionais ocorrer ao nascer do sol, nem muito antes nem pouco depois, tem que ser no máximo 15 minutos antes ou após o nascer do sol. Não considerar estas janelas apenas demonstra uma profunda ignorância na banda e ignorância não ajuda no QSO, tentar forjá-los fora dos horários é cair no ridículo. Nenhum operador decente de banda baixa ignora isso. Não adianta vir com arenga, lenga-lenga ou histórias da carochinha. Não fala e pronto.
No e-mail que o Beni me enviou recentemente ele disse ter ouvido um PY2 muito forte, estranhamente forte e resolveu me contar. Disse ele que estava corujando uma operação em Dili quando ouviu o PY2. Beni achou estranho ouvir PY àquela hora da noite, por volta das 20:40 local e resolveu anotar e ver o que estava acontecendo. No e-mail Beni me perguntou se há alguma antena nova, alguma teoria surgindo porque não seria possível, em condições normais, algo assim. Você sabe, disse ele, não ouso desconfiar de alguém daqui trabalhando um país para um PY pois somos ambos povos muito sérios com nível de trapaça e corrupção ligeiramente abaixo dos países escandinavos. Jamais pensaria em acusar nem um YB e muito menos um PY de estarem usando meios escusos para trapacear um QSO. Por favor, investigue as novas teorias de construção de antenas e me conte. Beni ainda perguntou se alguém teria montado algum protótipo bem sucedido da minha antena a gás. (V. Experimentações Teóricas de abril de 2013)
Como não poderia negar um pedido do velho amigo, tive que pesquisar bastante e descobri uma montagem de um búlgaro, um conhecido e honesto operador de banda baixa onde ele estava testando um protótipo de uma antena tocada a energia solar. Segundo consegui descobrir a antena tem a forma de um V invertido mas não usa fio, usa uma chapa de uma liga denominada Be-Ni-Cu, 22% de berilo, 12% de níquel e 66% de cobre. A chapa tem espessura de 0,5mm e largura de 42mm o que a torna flexível para poder ser enrolada à exemplo das utilizadas pelas antenas dinâmicas. O carretel é usado para sintonizar a antena no segmento desejado, isto é, para a porção de CW ou de SSB. A largura da fita é adequada tanto para receber a insolação quanto para tornar a antena o mais broadband possível. O ângulo de inclinação das pernas do V invertido deve ser tal que possibilite tanto a insolação máxima quanto manter a impedância o mais próximo possível de 50 ohms. Assim, para latitudes menores, mais próximas do equador, a antena tem menor eficiência dado a menor insolação - sol mais a pino e, portanto, com ângulo de incidência mais agudo - mas, por outro lado, as temperaturas maiores acabam por compensar a perda do índice de iluminamento. Nas latitudes mais altas o fenômeno é inverso. Por outro lado, a antena tem mostrado o seu melhor rendimento nas latitudes tropicais, isto é, +/- 5º da linha do trópico.
Logo após o nascer do sol, a antena começa a receber iluminação direta do sol e começa a aquecer, por volta de 2 horas e meia após o sunrise ocorre o fenômeno conhecido como ergoblaster quando toda a energia recebida pela antena é propagada com o incremento da temperatura da antena alcançando um fator de 20 dB; o baixo ângulo de irradiação faz com que o sinal passe por baixo da camada D, a esta hora já formada, e tenha seu primeiro skip a milhares de quilômetros de distância. Vale lembrar que após o sinal sofrer seu primeiro skip, encontrará a zona de plasma equatorial e seguirá via ducto para em seguida abandonar a camada e descer para a estação receptora à exemplo das conhecidas propagações F2F2, que como sabemos é completamente diferente da propagação 2F2.
Mandei a explicação para o amigo indonésio acompanhado de um croquis, foto de um protótipo que consegui arranjar por vias transversas e do indicativo da estação que a montou, tudo acompanhado de uma nota dizendo: mistery solved. Beni, respondeu apenas: indeed it is...
73 DX de PY2YP - Cesar