quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Expedição Remota II

Em Vladvostok o clima era de comemoração, os DXers ali reunidos, mal podiam se conter de bêbados que estavam de tanto comemorar. O que mais se via eram garrafas de Wodka trazidas pelos finlandeses, uma garrafa de whisky pela metade trazida por um escocês e muita cerveja aguada, presente da delegação americana. Dois DXers da velha guarda permaneciam sóbrios por determinação médica e prontos para dar início à dx-pedition. Caberia ao mais velho as honras da casa e chamar CQ.
O pessoal das mesas de controle estava com os olhos grudados nos monitores que indicavam temperaturas interna e externa, umidade interna do ar, funcionamento dos servo-controladores e o principal: as câmaras de vídeo dotadas de sensores infravermelhos para detecção de intrusos num raio de meia milha. No alto do mastro da antena havia uma câmara que podia enxergar ainda mais longe, cerca de 3 milhas sob nevoeiro médio e uma milha sob nevoeiro intenso. Três grandes relógios com um pé de diâmetro mostravam os horários: o central marcava a hora do local de operação, o da esquerda a hora local do centro de operações e controle e o da direita hora universal. Eram precisamente 05:30 em Hanyopyong quando o russo, líder do centro de operações, deu ordem aos veteranos DXers que iniciassem a operação.
A comunidade dxzista ao redor do mundo estava com a recepção de seus rádios ajustadas em 14.025 que era de longe a frequência de maior aposta para início das operações. O indicativo mantido em absoluto segredo finalmente seria usado para o primeiro CQ e fora motivo de infindáveis discussões, P5RS remetia à operação do infausto Romeo Stepanenko quando da expedição P5RS7 que segundo foi apurado operou da Rússia Oriental, ali mesmo, perto de Vladvostok, ao demais, RS remetia igualmente às suas iniciais. Por outro lado, argumentavam os defensores, RS era uma homenagem à primeira remote station expedition. Optou-se finalmente após imensas discussões por P5RS. Os egressos não entendiam o motivo de tanta exultação mas comentavam entre eles usando o dialeto próprio das suas origens: “vou fechar um QSO com essa ativação”. Os ascendentes estavam excitadíssimos com a possibilidade de trabalharem um ATNO. Haviam descoberto há pouco o significado de all time new one e usavam a expressão na forma de abreviatura exibindo grande sabença e intimidade com os infindáveis mistérios. Ao demais, para os ascendentes, ATNO é o que não falta, há muito por fazer ainda.
Igualmente, discutiu-se muito qual a banda e modalidade para início. Da forma como a estação foi concebida só haveria uma estação no ar operando uma única banda e uma só modalidade por vez. Como então distribuir o plano de bandas e modos? Para os egressos 20 metros era a consecução de seus sonhos, trabalhar um país do calibre de P5 era a glória dos egressos. Para os ascendentes, a modalidade de início tanto fazia, já operavam CW, já haviam se distanciado dos egressos e tentavam emparelhar-se com os OT, assim, o que valia mesmo era P5 no log e poder sonhar com o top, sonho e tortura dos ascendentes. A modalidade de início também fora motivo de muita discussão, alguns dos patrocinadores exigiam que o início e a maior parte da operação se desse em fonia. Falar todo mundo fala, argumentavam. Por outro lado, os veteranos retorquiam: hoje em dia qualquer pândego chega ao honor roll em telegrafia com ajuda de decodificadores ou mesmo com uma telegrafia básica, só precisam identificar seus indicativos o que pode ser conseguido pelo método pavloviano. Até mesmo cérebros obtusos conseguem decodificar seus próprios indicativos, escarneciam.
Outra discussão sangrenta onde alguns puristas quase saíram no tapa com os modernistas foi a decisão da modalidade digital. Estes últimos argumentavam que poderiam automatizar todo o processo utilizando a modalidade da moda: FT8. O software coloca o transmissor no ar e emite 5 sinais simultâneos em modo pentaplex, estes 5 sinais são conhecidos como foxes; ao passar para recepção, varre o espectro decodificando até 50 sinais simultaneamente; um algoritmo decide para qual indicativo voltar bloqueando sinais acima de 13 dB para não estimular o uso de potência nas pontas do pile-up, as estações desta ponta são denominadas hounds. O processo estabelece peso para os indicativos, baseado no sistema de cotas: os mais velhos terão peso maior, os países com menos densidade demográfica terão, igualmente, tratamento preferencial; os países mais pobres, terão pesos ainda maiores porque seus habitantes não podem arcar com os custos exorbitantes de monobandas ou de antenas dinâmicas. O processo pode ser automatizado a tal ponto que os operadores do centro operacional poderão descansar enquanto a estação remota cuida de tudo trabalhando 5 estações por vez. Na ponta do pile-up, argumentavam os modernistas, os operadores também não precisarão intervir para ter P5 no log, basta deixar que o software cuide de tudo. É o final dos tempos destemperavam os mais velhos repetindo a mesma frase utilizada no final da década de 1950 quando surgiram os transceptores que usavam o moderníssimo SSB. Fora do CW não há rádio, lamentavam.
continua...

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Expedição Remota I

Uma assustadora e silenciosa mancha cinza sobrevoou os céus de Hanyopyong a 8.000 pés, num voo calmo, sem ruído, apenas varrido pelo vento que soprava NW. Alguns minutos depois a enorme mancha começou a descer na vertical e pousou suavemente nas coordenadas programadas: 42º31’48”N 130º30’36”E e 2.880 pés de altitude entregando sua gigantesca encomenda. A grossa camada de neve amorteceu o baque final e imediatamente os sofisticados mecanismos do container entraram em ação. O cinza do gigantesco paraquedas confundia-se com a neve e não podia ser visto dos postos de observação da fronteira russa onde os vigias à essa hora da madrugada mal conseguiam ficar acordados. O café ralo com gosto de palha de milho era considerado um luxo servido apenas ao pessoal do plantão noturno ou a quem se dispusesse corromper o oficial encarregado da intendência.
As câmeras dotadas de visão noturna se abriram, esquadrilharam todos os 360 graus do horizonte, certificando os operadores baseados em Vladivostok que poderiam continuar com os comandos. Do fundo do container abriram-se duas tiras com 10 polegadas de largura e quase todo o comprimento do container; em seguida foi acionado um comando aos braços hidráulicos e um par de esteiras localizados no fundo do container abaixou-se forçando-o para cima, apenas algumas polegadas, para em seguida acionar o motor elétrico. O container sacudiu ligeiramente e todo o conjunto dirigiu-se a um ponto um pouco mais a leste e mais acima. No ponto desejado as esteiras foram recolhidas permitindo que o container estacionasse definitivamente. Uma vez estacionado as diagonais do lado menor do container se alongaram e cravaram fundo na neve até encontrar um solo resistente e passaram a funcionar como patolas dando estabilidade ao container, agora devidamente estacionado e pronto para suportar as tensões a que seria submetido. Uma escotilha localizada no topo do container com 6 polegadas de diâmetro foi aberta permitindo a passagem do tubo feito de liga aço-titânio revestido de uma fina camada de cobre como se fosse um gigantesco periscópio. O tubo telescópico foi reduzindo a seção até ficar com apenas meia polegada na extremidade final. O comprimento total atingia inacreditáveis 66 pés de extensão total. Ao meio da primeira seção do tubo, estavam encravados em baixo relevo 16 tubos de 9 pés de comprimento, afixados através de dobradiças servo comandadas. Assim que o tubo grande atingiu sua posição final os 16 tubos telescópicos foram levantados formando um ângulo de 90 graus em relação ao tubo mestre e suas seções foram alongados até atingirem 57 pés, formando um plano terra elevado. A antena dinâmica estava pronta para ser sintonizada na banda desejada, irradiar CQ e começar a operar efetivamente.
A aeronave que carregara o container havia decolado horas antes da base aérea de Vladivostok e era o ponto alto de um projeto começado anos antes levado a cabo por radioamadores russos, finlandeses, alemães e americanos, tudo com ajuda financeira das maiores associações de DX. Por outro lado, corria um boato que a CIA havia bancado grande parte do custo para absorção tecnológica para fins menos corriqueiros. O container carregava o que havia de mais moderno em mecânica fina, eletrônica e antenas dinâmicas, tudo servo-controlado. Um sistema composto de micro antenas e roteadores conseguia acesso a um satélite que disponibilizava uma banda passante de 5 Gb/s, suficiente para o tráfego dos comandos, imagens e tudo o mais que fosse preciso.
O container não obedecia exatamente aos padrões normais de forma e dimensões, tinha superfícies ligeiramente onduladas, revestimento não reflexivo aos radares e pintura foto variável: durante a noite era cinza escuro e durante o dia cinza muito claro de forma que, visualmente, pudesse sempre estar mesclado à paisagem nevada.
O local fora cuidadosamente escolhido, próximo o suficiente da fronteira russa de forma que as forças de fronteira, que raramente olham para dentro do país, não pudessem notar o monstrengo a algumas milhas das suas costas e longe o bastante das atenções das autoridades de Pyongyang. O ponto exato deveria ser um local com 360 graus livres e inteiramente desprovido de obstáculos; alto o suficiente para ter neve durante o período de operação além de oferecer o máximo de dificuldades para que uma patrulha pudesse investigar o sítio.
Com tudo acertado finalmente a tão esperada hora de começar a operação havia chegado. Os egressos e os ascendentes ao redor do mundo estavam excitadíssimos, alguns deles haviam feitos polpudas doações na vã ilusão de que mesmo não conseguindo um QSO legítimo pudessem constar do log.
Continua...
73 DX de PY2YP - Cesar

sábado, 14 de outubro de 2017

Ars per ars

Aprendemos nas aulas de ciências do curso primário que existem três estados da matéria: sólido, líquido e gasoso, assim considerados porque nos transmitem sensações ao toque, ao contato ou ao cheiro. Há, porém, algo que nos transmite sensações e mesmo emoções sem estar contido nos três estados ditos, o quarto estado: o estado da arte.
De fato, no estrito sentido de transmissões sensoriais, o estado da arte é tão poderoso quanto qualquer outro estado da matéria. E, como arte, pode ser entendida qualquer manifestação que nos faça sentir emoções, ficarmos felizes ou indignados. A manifestação artística dos peladões ajoelhados em roda enfiando seus dedos nas pubendas dos que estão às suas frentes; ou o peladão que se deixa tocar pelos infantes, é arte pura, no estrito sentido que nos tiram do sério, nos deixam indignados, furibundos, inflamados e prontos para aplicar uns bons cascudos nessa gente que pratica arte rasteira, baixa e imunda. Ainda assim, no sentido teórico continua sendo arte eis que o objetivo de transmitir emoções foi alcançado. Lembremo-nos que um número qualquer tem duas raízes, uma positiva e outra negativa, esta última, igualmente importante. Afinal, a impedância, nossa velha conhecida, leva em conta os valores das raízes negativas no seu cálculo ao contrário da resistência que só leva em conta os números do campo real.
Na Grécia antiga a arte era levada a sério no seu ultésimo grau, o pessoal se reunia nos anfiteatros para ouvir versos, ouvir música ou assistir a peças teatrais. A poesia não era como esta de hoje em dia cujo único objetivo é engrandecer o traseiro feminino. Os gregos batiam os pés alternadamente, uma batida curta e outra longa, eram os chamados pés-de-verso ou iambos em grego. Sim, o precursor dos manipuladores iâmbicos. Cada linha do verso tinha que, além de fazer a rima, obedecer a uma rigorosa métrica; por exemplo: um verso sáfico deveria ter 10 sílabas em cada linha e, além disso, ter sílabas tônicas nas quartas, oitavas e décimas posições, tudo acompanhado das batidas dos pés dos espectadores. Não bastasse isso, o verso tinha que contar alguma proeza ou uma cantada nalguma grega bonita. Os gregos ainda eram bons em escultura, arquitetura e diversas outras manifestações artísticas. Decididamente eles eram o estado da arte.
As manifestações artísticas podem ainda aparecer em qualquer atividade humana, basta que a façamos bem feito, bem feito a ponto de que seu resultado nos desperte emoções. Experimente fazer arte com o CW. Sim, ao tempo que comecei no rádio, os telegrafistas tinham sua própria letra, sua própria maneira de transmitir e eram conhecidos ou reconhecidos nas bandas apenas pelas suas peculiaridades de manipulação, quem já transmitiu com um daqueles batedores sabe do que estou falando. Essa arte continua viva durante o Straight Key Night quando todo mundo sai de batedor, nada de eletrônicos ou computadores para transmitir. É a arte pela arte, ars per ars. Nesta linha, até mesmo a participação em pile-up nos permite dizer que pode haver arte no seu mais estrito senso. Quando participamos do pile-up corretamente podemos atingir o ponto mais alto das emoções auditivas: o eargasm. Este acontece quando ouvimos o nosso indicativo seguido de 599 TU. Creio que todos nós já alcançamos esse clímax mais de uma vez.
Na contramão disso tudo existem aqueles que por incúria, incompetência ou mera imbecilidade, conseguem por meios escusos e trapaceiros terem seus indicativos nos logs. Por serem incapazes de atingir emoções por meios próprios, imploram a amigos que trabalhem os DX para eles, criando sua própria arte, a arte que lhes trazem como emoções os mais baixos sentimentos contidos nos porões da alma: inveja, rancor, ira, ódio e frustração. Comportam-se como o peladão que não conseguindo ser eros tornou-se tânatos.
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 9 de julho de 2017

Arengas e lenga-lengas

Muito antes de nós,
Muito antes dos nossos avós
Já lecionava aos faraós,
Prosperina de Queiroz.

Era assim, em 1960, que encarávamos a fera. Dona Prosperina, vetusta e empertigada senhora, creio que andava lá pelos seus 70 e poucos anos - naquela época as pessoas podiam trabalhar até quando quisessem ou tivessem disposição - lecionava desenho para a turma do segundo ano ginasial. A velha senhora, antes do início da aula, percorria todas as fileiras examinando as mãos dos alunos, todos nós ficávamos com as palmas de ambas as mãos estendidas e ao menor indício de sujeira éramos colocados para fora da classe, severamente admoestados e penalizados em 0,5 ponto na próxima prova. Não pode sujar o papel, dizia ela, o aluno tem que estar limpo para desenhar e para qualquer outra coisa que faça. Limpeza nas mãos e no caráter, falava enquanto brandia uma régua de madeira, pesada, com um dos lados com uma camada metálica para dar mais rigidez; nunca se soube de um único aluno que a desafiasse. A empertigada velhota poderia facilmente desancar o ousado. Eram outros tempos, tempos em que as pessoas tinham vergonha, caráter, honra e orgulho do que faziam. Se alguém ousasse mentir para dona Prosperina estaria condenado a passar mais um ano com ela, o infeliz seria reprovado e na segunda reprovação o fantasma da jubilação se tornaria realidade. Ser jubilado era o mesmo que ser expulso do ginásio para nunca mais voltar. Ah, sim a escola era pública, chamada de ginásio do estado, ou simplesmente estadão, assim mesmo, como o jornal. Quem conseguisse completar o ginásio e o curso científico no estadão, sem uma única reprovação, podia se considerar um vencedor.
Os tempos mudaram, ficaram modernos, o ensino público foi alvo de sucessivos e bem sucedidos ataques por parte das autoridades, as novas teorias pedagógicas, os discípulos do grande enganador francês, monsieur Piaget, atingiram o alvo com assustadora precisão: desmontaram e alquebraram algumas gerações que vagam pela sociedade sem norte, sem parâmetros e sem vergonha. O ensino atual já não molda caráter, não norteia comportamentos e, pior, não pune os desalinhados. E isso vale para todas as atividades: comerciais, empresarias, políticas, cotidianas e, como não podia deixar de ser, para o nosso inofensivo DX.
Os operadores sem formação moral e escolar suficientes, sem norte comportamental, os desnorteados saem por aí fabricando QSLs, forjando QSOs impossíveis e por não terem formação educacional básica, confundem horários, latitudes e longitudes além de cometerem toda sorte de trapalhadas nas suas falcatruas. A pândega desfaçatez poderia ser rotulada de cômica, não fosse tão sem-graça. Os esquerdopatas dizem que esse tipo de gente é resultado do capitalismo opressor, da sociedade perversa e por aí vai. Até onde vai não se sabe. O fato, triste, diga-se, é que essa gente está a aumentar. Sabe-se hoje de vários e vários operadores que assim agem. Quando pegos na mentira insistem nas suas fantasiosas versões. Claro, não lhes resta outra alternativa senão negar o óbvio a mais não poder; não conseguem convencer quem quer que seja, todavia.
O desconhecimento é tamanho, que um dos larápios, ao tentar justificar um QSO com um país da zona 29 disse tê-lo ouvido porque tinha uma beverage apontada para a cidade do Cabo. O nosso planeta, para seu infortúnio, é esférico; não é preciso ser versado em ortodromia para saber que a beverage deveria estar apontada bem mais para o sul. Outro pândego jura ter falado em 80 metros com uma estação da zona 28 duas horas após o nascer do sol, ao ser confrontado reduziu o horário em três horas para ficar na zona escura daqui; esqueceu-se, ou não sabia, que ao fazer isso o DX ficou duas horas antes do pôr do sol; nas palavras de um conhecido operador de 160m: a zona escura é como cobertor curto, ao cobrir a cabeça os pés ficam de fora... Ah sim, só para constar, à hora dita o DX estava em 12 metros; até onde se sabe não há harmônico gerado em 80 que alcance 12 metros! Um outro, este sim, um falsário, meteu-se a gráfico e imprimiu um QSL mas ao escrever o nome do operador errou na grafia; ao ser consultado, o DX apenas disse: "eu sei escrever meu nome!" As histórias são inúmeras, algumas engraçadas são contadas e recontadas nos encontros e feiras onde os operadores caem em gargalhadas homéricas expondo ao ridículo os farsantes, tudo regado a muita cerveja.
Ao tempo em que eu verificava os QSLs para o WAZ, um desses gaiatos veio aqui em casa com o pacote completo, iria pedir o terrível 5BWAZ, diploma dos mais complicados e que exige muita dedicação. A verificação foi normal até chegar nas zonas difíceis em 80m. Notei que o operador começou a ficar um tanto quanto tenso e pedi que ele me acompanhasse até a estação, abri o DX-Atlas para simular o dia e hora de um QSO da zona 24. Não deu outra, o QSO estava com uma hora de sol na estação do DX. Ele não teve dúvida, sacou um envelope da pasta, e mostrou outro QSL mas desta vez o horário era após o nascer do sol daqui; sacou um terceiro QSL e novamente horário impossível. Ao final da verificação rejeitei as zonas 24, 29, 30 e 40. Disse a ele: encaminhe os 200 cartões para o manager nos USA porque eu não vou assinar. Ah, vou avisar o manager da CQ para verificar os horários das zonas que rejeitei, completei. Ele demorou quase 10 anos para pedir o diploma diretamente nos USA. Esse tipo de comportamento me fez desistir das atividades de verificação dos diplomas da ARRL e da revista CQ, simplesmente me cansei de tanta pilantragem.
O que leva alguém a se comportar dessa maneira? Ao pedir para que outrem faça o QSO por procuração está assinando a declaração de completa incompetência, de falta de capacidade técnica, de falta capacidade operacional e de falta de vergonha. Para quê? Para depois de constar no log jactar-se da sua própria e infeliz incapacidade? Uma coisa é fazer esse tipo de bobagem em bandas altas onde ninguém dá a menor importância, seja o QSO com um P5 ou um 4W em 10 ou 12 metros, mas agir assim nas bandas baixas é o mesmo que dar um tiro no pé. Os operadores sérios das bandas baixas se comunicam durante as expedições, trocam informações de ruídos, de horários mais prováveis e comentam que trabalharam estações próximas às áreas de interesse. É nessas horas que os tolos são desmascarados, sempre foi assim. Foi assim com SU, 9N, 4W e várias outras operações difíceis. Mas, há algo novo no ar: as novas tecnologias.
Eu não estive presente, mas me foi dito que na última feira de Dayton foi falado que o LOTW e SDR estão servindo de ferramentas para auditoria em vários diplomas do DXCC, principalmente nos diplomas de 80 e 160 metros. Já há vários casos consumados e exemplos horríveis como o de uma estação que forjou QSOs com 150 (cento e cinquenta) países em 160 metros. Pelo que foi falado a cassação começará em breve. Segundo consta há alguns brasileiros envolvidos. Se isso realmente acontecer a ARRL estará saldando uma dívida antiga para com os operadores sérios e resgatando a credibilidade do DXCC. Aguardemos.
73 DX de PY2YP - Cesar

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Antena solar

Há algumas semanas recebi um e-mail de um amigo indonésio de longa data, meu primeiro QSO com ele foi em 1978 e vez por outra trocamos alguns QSOs em 20 metros CW. Ele esteve certa feita em São Paulo e tomamos uns tragos juntos discutindo a propagação entre Indonésia e São Paulo.
Beni, é esse seu nome, sabe do meu grande interesse pelos estudos de propagação principalmente em 80 metros que é de longe minha banda preferida. Quando comecei a trabalhar o 5BWAZ em 1997 ele me ajudou muito apontando as frequências menos ruidosas para que eu pudesse trabalhar as zonas 24, 28 e 29, que são algumas das zonas complicadas em 80. Beni foi o primeiro QSO com a 4 square na zona 28, eu havia escrito para ele contando dos meus estudos em montar uma antena grande e ele ficou vivamente interessado no resultado. Quando marcamos o sked para esse QSO discutimos bastante para marcar o horário. Para complicar um pouco, o QTH do Beni é na extremidade leste da Indonésia e o path para lá passa em cima do polo sul magnético, é basicamente a mesma propagação do Timor. Como sabemos, de meados de agosto a meados de maio a propagação é exclusivamente ao nosso entardecer, por outro lado, de maio a agosto, a propagação pode, em casos excepcionais ocorrer ao nascer do sol, nem muito antes nem pouco depois, tem que ser no máximo 15 minutos antes ou após o nascer do sol. Não considerar estas janelas apenas demonstra uma profunda ignorância na banda e ignorância não ajuda no QSO, tentar forjá-los fora dos horários é cair no ridículo. Nenhum operador decente de banda baixa ignora isso. Não adianta vir com arenga, lenga-lenga ou histórias da carochinha. Não fala e pronto.
No e-mail que o Beni me enviou recentemente ele disse ter ouvido um PY2 muito forte, estranhamente forte e resolveu me contar. Disse ele que estava corujando uma operação em Dili quando ouviu o PY2. Beni achou estranho ouvir PY àquela hora da noite, por volta das 20:40 local e resolveu anotar e ver o que estava acontecendo. No e-mail Beni me perguntou se há alguma antena nova, alguma teoria surgindo porque não seria possível, em condições normais, algo assim. Você sabe, disse ele, não ouso desconfiar de alguém daqui trabalhando um país para um PY pois somos ambos povos muito sérios com nível de trapaça e corrupção ligeiramente abaixo dos países escandinavos. Jamais pensaria em acusar nem um YB e muito menos um PY de estarem usando meios escusos para trapacear um QSO. Por favor, investigue as novas teorias de construção de antenas e me conte. Beni ainda perguntou se alguém teria montado algum protótipo bem sucedido da minha antena a gás. (V. Experimentações Teóricas de abril de 2013)
Como não poderia negar um pedido do velho amigo, tive que pesquisar bastante e descobri uma montagem de um búlgaro, um conhecido e honesto operador de banda baixa onde ele estava testando um protótipo de uma antena tocada a energia solar. Segundo consegui descobrir a antena tem a forma de um V invertido mas não usa fio, usa uma chapa de uma liga denominada Be-Ni-Cu, 22% de berilo, 12% de níquel e 66% de cobre. A chapa tem espessura de 0,5mm e largura de 42mm o que a torna flexível para poder ser enrolada à exemplo das utilizadas pelas antenas dinâmicas. O carretel é usado para sintonizar a antena no segmento desejado, isto é, para a porção de CW ou de SSB. A largura da fita é adequada tanto para receber a insolação quanto para tornar a antena o mais broadband possível. O ângulo de inclinação das pernas do V invertido deve ser tal que possibilite tanto a insolação máxima quanto manter a impedância o mais próximo possível de 50 ohms. Assim, para latitudes menores, mais próximas do equador, a antena tem menor eficiência dado a menor insolação - sol mais a pino e, portanto, com ângulo de incidência mais agudo - mas, por outro lado, as temperaturas maiores acabam por compensar a perda do índice de iluminamento. Nas latitudes mais altas o fenômeno é inverso. Por outro lado, a antena tem mostrado o seu melhor rendimento nas latitudes tropicais, isto é, +/- 5º da linha do trópico.
Logo após o nascer do sol, a antena começa a receber iluminação direta do sol e começa a aquecer, por volta de 2 horas e meia após o sunrise ocorre o fenômeno conhecido como ergoblaster quando toda a energia recebida pela antena é propagada com o incremento da temperatura da antena alcançando um fator de 20 dB; o baixo ângulo de irradiação faz com que o sinal passe por baixo da camada D, a esta hora já formada, e tenha seu primeiro skip a milhares de quilômetros de distância. Vale lembrar que após o sinal sofrer seu primeiro skip, encontrará a zona de plasma equatorial e seguirá via ducto para em seguida abandonar a camada e descer para a estação receptora à exemplo das conhecidas propagações F2F2, que como sabemos é completamente diferente da propagação 2F2.
Mandei a explicação para o amigo indonésio acompanhado de um croquis, foto de um protótipo que consegui arranjar por vias transversas e do indicativo da estação que a montou, tudo acompanhado de uma nota dizendo: mistery solved. Beni, respondeu apenas: indeed it is...
73 DX de PY2YP - Cesar


domingo, 21 de fevereiro de 2016

A reforma

Era uma daquelas tardes modorrentas, tudo meio parado, as bandas ainda reverberando da ressaca de duas grandes expedições, agora, passado o frenesi, a calma voltava a imperar. Papay Yankee dormitava na rede, olhos cerrados e ouvidos em stand by. Ele andara ausente, havia se mudado para um longo período de estudos transcendentais no Sikkim, diziam uns e emendavam: esteve lá para recuperar um QSL de um QSO com AC3PT, Palden Thondup, dado como perdido; outros diziam que ele simplesmente havia se desligado de tudo e abandonado o rádio. Pura falta de informação. Por onde ele andara ninguém sabia.
Mas de fato mesmo, ou melhor, não se sabe como a parede do shack agora ostentava o QSL do rei do Sikkim, de alguma forma o velho havia finalmente conseguido recuperar um dos últimos QSLs perdidos. Claro, ele tinha Sikkim confirmado em 20 metros, o rei havia pago o cartão da prisão mandando um guarda, seu admirador, colocá-lo no correio. Este novo cartão era em 40 metros, novo e raríssimo na banda. Sua Majestade Palden Thondup Namgyal, ou simplesmente Palden, como era conhecido no rádio, uma ocasião contratou uma professora americana para ensinar alguns dos seus inúmeros filhos e ele acabou casando-se com ela. Quando foi deposto o governo americano exigiu que ele pudesse deixar o país com seus filhos, suas esposas, concubinas e os demais restantes do bando e ir morar nos USA. Esse rei inspirou um filme de muito sucesso na década de 60 estrelado pelo careca Yul Brynner e Deborah Kerr: O rei e eu.
Um turista do Rio de Janeiro em viagem àquelas bandas jura ter visto Papah Yankee caminhando descalso numa viela de Lhasa no Tibet com um olhar perdido no horizonte, em estado quase catatônico. Um radioamador francês, integrante do Medecins sans Frontiers, diz tê-lo visto distribuindo, igualmente descalso, sanduíches de mortadela às vítimas do terremoto em Kathmandu. Esses avistamentos foram seriamente discutidos nos jardins internos da feira de Friedrichshafen, claro regado a muita cerveja. Certeza mesmo ninguém tinha, eram apenas visões e aparições esporádicas. Alguns teóricos diziam que ele estava mesmo morando nas silentes montanhas do Himalaia devido à composição mineralógica dos maciços. Andava descalso, conjeturavam, para descarregar a imensa quantidade de RF adquirida em décadas de exposição. Por onde o velho andou permanece, ainda hoje, um dos mais insondáveis mistérios.
Nesse período de ausência do velho o sítio de Maracutaia da Serra havia passado por reformas profundas, as antenas foram todas desmontadas, lavadas, engraxadas, lubrificadas, alinhadas e remontadas; o shack teve sua instalação elétrica verificada, recebeu aterramento novo, novas estantes, uma bancada para pequenos reparos; os rádios foram todos alinhados, válvulas novas para os lineares, um keyer novo, presente de um belga; a biblioteca toda reorganizada recebeu um novo equipamento de som, os discos e livros foram todos catalogados; e o principal: a varanda recebeu telas protetoras contra mosquitos, pintura nova e mobiliário novo, mais leve, pronto para receber os amigos e alguns ascendentes eventuais.
Nos bons tempos o sítio, além dos frequentadores habituais, recebia muito bem alguns dos locais, alguns ascendentes e raramente algum dos egressos, estes não eram benvindos no sítio. Tolerar os ascendentes, dizia Papah Yankee, já é um exercício de paciência, mas os egressos ninguém aguenta. Estes últimos, queixava-se ele, querem mudar a forma de grafar os indicativos, flexionam QSLs e lineares no feminino, um verdadeior horror. Agora, depois do longo período de ausência, desta vez iluminado pelas luces transcendentais tibetianas e nepalesas talvez o velho se dispusesse receber um ou outro egresso com melhor humor, mas isso era uma aposta de alto risco.
Na outra extremidade da varanda Zé QRO conversava em voz baixa com Jota QRP sobre umas aparições fantasmagóricas de um búlgaro em 160m...
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 25 de janeiro de 2015

Operações Remotas

As novas regras do DXCC permitem que se possa operar uma estação remota, desde que dentro do mesmo país, e ainda assim validar os QSOs para os diplomas da ARRL. Esta alteração promoveu grande altercação entre os participantes dos diplomas DXCC. Alguns mais radicais se propuseram a queimar seus QSLs, diplomas, equipamentos, antenas, rasgar os pulsos e sangrar até a morte. Outros, mais comedidos, preferiram continuar trabalhando seus DX mas nunca mais submetê-los à aceitação da Liga. Uma grande parte ainda não se manifestou, seja por não terem sido avisados das mudanças ou porque não acharam que fossem significativas o bastante para merecer seus tempos.
A verdade é que a ARRL nada mais fez do que se adaptar às novas tecnologias que permitem operações remotas a baixo custo. Nada mais do que isso, uma questão meramente econômica. Há muitos anos, não me lembro exatamente se dez ou quinze anos, a revista QST publicou um interessantíssimo artigo que previa o fim das expedições tripuladas. Um grupo de DXers se reuniria, montaria um equipamento que seria lançado por avião em algum lugar remoto, exótico, algo como Bouvet, Peter First ou outro lugar qualquer que fosse interessante do ponto de vista de raridade para o DXCC. Esse equipamento, totalmente operável por controles remotos, cairia de para-quedas num ponto previamente escolhido, claro, com bons paths para as costas leste e oeste dos USA, abriria seu invólucro, abriria os coletores de energia eólica e solar, carregaria suas baterias, esticaria uma vertical até a frequência desejada e faria os contatos, decodificando automaticamente RTTY, CW e até mesmo os fonéticos internacionais; o log seria enviado por satélite para os operadores da estação remota que os validaria e enviaria os cartões QSL. Toda a tecnologia para isso, lembrava o artigo, estava dominada e ao alcance de todos, era apenas uma questão de custo. Seria esse o fim das expedições? Ou seria um novo começo?
Um ponto interessante do DX, seja ele para alcançar o WAZ, DXCC, ou qualquer outro papelucho, é que o participante estabelece suas armas e seus objetivos e, dentro dessas premissas, ele participa. As regras de um ou outro diploma nada mais são do obstáculos legais ou morais para que haja algum espírito de competição e emprestar algum interesse ao papelucho.
Pergunto para os interessados qual a diferença entre ouvir um DX pelo telefone de um amigo ou por um SDR? Qual a diferença entre operar uma estação remota ou a estação de algum amigo? As regras dizem que as estações devem respeitar os limites legais de potência de cada país. Por acaso alguém já mediu a potência irradiada das big-guns? Conheço várias que operam muito acima do limite legal. Você também as conhece? Essa limitação não é atendida e os donos das estações se orgulham de suas potências e, mais, sou capaz de apostar que a esmagadora maioria das pessoas gostaria e muito de poder transmitir com 5 ou 10 kW. As regras dizem que os DXs devem ser feitos pelo mesmo operador, mas, e se alguém vem operar sua estação e faz um país novo em alguma banda com seu indicativo, você vai ignorá-lo ou vai contabilizá-lo? Talvez você diga que é válido porque foi feito da sua estação e trará de volta a velha discussão que o indicativo deve pertencer ao operador e não a estação. Discussão tão longa quanto velha. É claro que alguns limites devem ser observados e alguns comportamentos são absolutamente condenáveis, como o de dois operadores que aparecem com QSOs em 160 metros com o sol a pino e os põem nos seus logs; não só isso mas ainda exibem orgulhosamente os QSLs. Idiotas? Penso que não, apenas tiveram seus sensos de exibicionismo acima dos sensos éticos, uma questão meramente aritmética.
Quando comecei a caçar países há mais de quarenta anos eu nem suspeitava da existência do DXCC, fiquei sabendo disso uns três anos depois quando um amigo me perguntou se eu já tinha 100 países confirmados, contei os cartões e respondi que tinha 134 e ele então me disse para mandá-los para o endereço da ARRL que eu ganharia um diploma. Mandei e vários meses depois recebi um canudo com o diploma dentro, enfiei o papelucho numa pasta de onde nunca mais saiu. Nunca dei importância ao papel em si, mas, muito, ao objetivo que eu estabeleci: falar com todos os países do mundo. Terminei a empreitada há 10 anos e não tenho mais objetivo definido, continuo a fazer DX porque gosto e continuarei fazendo enquanto o gosto durar; os resultados são e continuarão sendo mera consequência da minha permanência no ar. O que penso de operação remota? Nada. A discussão é inócua.
73 DX de PY2YP - Cesar