domingo, 21 de fevereiro de 2016

A reforma

Era uma daquelas tardes modorrentas, tudo meio parado, as bandas ainda reverberando da ressaca de duas grandes expedições, agora, passado o frenesi, a calma voltava a imperar. Papay Yankee dormitava na rede, olhos cerrados e ouvidos em stand by. Ele andara ausente, havia se mudado para um longo período de estudos transcendentais no Sikkim, diziam uns e emendavam: esteve lá para recuperar um QSL de um QSO com AC3PT, Palden Thondup, dado como perdido; outros diziam que ele simplesmente havia se desligado de tudo e abandonado o rádio. Pura falta de informação. Por onde ele andara ninguém sabia.
Mas de fato mesmo, ou melhor, não se sabe como a parede do shack agora ostentava o QSL do rei do Sikkim, de alguma forma o velho havia finalmente conseguido recuperar um dos últimos QSLs perdidos. Claro, ele tinha Sikkim confirmado em 20 metros, o rei havia pago o cartão da prisão mandando um guarda, seu admirador, colocá-lo no correio. Este novo cartão era em 40 metros, novo e raríssimo na banda. Sua Majestade Palden Thondup Namgyal, ou simplesmente Palden, como era conhecido no rádio, uma ocasião contratou uma professora americana para ensinar alguns dos seus inúmeros filhos e ele acabou casando-se com ela. Quando foi deposto o governo americano exigiu que ele pudesse deixar o país com seus filhos, suas esposas, concubinas e os demais restantes do bando e ir morar nos USA. Esse rei inspirou um filme de muito sucesso na década de 60 estrelado pelo careca Yul Brynner e Deborah Kerr: O rei e eu.
Um turista do Rio de Janeiro em viagem àquelas bandas jura ter visto Papah Yankee caminhando descalso numa viela de Lhasa no Tibet com um olhar perdido no horizonte, em estado quase catatônico. Um radioamador francês, integrante do Medecins sans Frontiers, diz tê-lo visto distribuindo, igualmente descalso, sanduíches de mortadela às vítimas do terremoto em Kathmandu. Esses avistamentos foram seriamente discutidos nos jardins internos da feira de Friedrichshafen, claro regado a muita cerveja. Certeza mesmo ninguém tinha, eram apenas visões e aparições esporádicas. Alguns teóricos diziam que ele estava mesmo morando nas silentes montanhas do Himaiaia devido à composição mineralógica dos maciços. Andava descalso, conjeturavam, para descarregar a imensa quantidade de RF adquirida em décadas de exposição. Por onde o velho andou permanece, ainda hoje, um dos mais insondáveis mistérios.
Nesse período de ausência do velho o sítio de Maracutaia da Serra havia passado por reformas profundas, as antenas foram todas desmontadas, lavadas, engraxadas, lubrificadas, alinhadas e remontadas; o shack teve sua instalação elétrica verificada, recebeu aterramento novo, novas estantes, uma bancada para pequenos reparos; os rádios foram todos alinhados, válvulas novas para os lineares, um keyer novo, presente de um belga; a biblioteca toda reorganizada recebeu um novo equipamento de som, os discos e livros foram todos catalogados; e o principal: a varanda recebeu telas protetoras contra mosquitos, pintura nova e mobiliário novo, mais leve, pronto para receber os amigos e alguns ascendentes eventuais.
Nos bons tempos o sítio, além dos frequentadores habituais, recebia muito bem alguns dos locais, alguns ascendentes e raramente algum dos egressos, estes não eram benvindos no sítio. Tolerar os ascendentes, dizia Papay Yankee, já é um exercício de paciência, mas os egressos ninguém aguenta. Estes últimos, queixava-se ele, querem mudar a forma de grafar os indicativos, flexionam QSLs e lineares no feminino, um verdadeior horror. Agora, depois do longo período de ausência, desta vez iluminado pelas luces transcendentais tibetianas e nepalesas talvez o velho se dispusesse receber um ou outro egresso com melhor humor, mas isso era uma aposta de alto risco.
Na outra extremidade da varanda Zé QRO conversava em voz baixa com Jota QRP sobre umas aparições fantasmagóricas de um búlgaro em 160m...
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 25 de janeiro de 2015

Operações Remotas

As novas regras do DXCC permitem que se possa operar uma estação remota, desde que dentro do mesmo país, e ainda assim validar os QSOs para os diplomas da ARRL. Esta alteração promoveu grande altercação entre os participantes dos diplomas DXCC. Alguns mais radicais se propuseram a queimar seus QSLs, diplomas, equipamentos, antenas, rasgar os pulsos e sangrar até a morte. Outros, mais comedidos, preferiram continuar trabalhando seus DX mas nunca mais submetê-los à aceitação da Liga. Uma grande parte ainda não se manifestou, seja por não terem sido avisados das mudanças ou porque não acharam que fossem significativas o bastante para merecer seus tempos.
A verdade é que a ARRL nada mais fez do que se adaptar às novas tecnologias que permitem operações remotas a baixo custo. Nada mais do que isso, uma questão meramente econômica. Há muitos anos, não me lembro exatamente se dez ou quinze anos, a revista QST publicou um interessantíssimo artigo que previa o fim das expedições tripuladas. Um grupo de DXers se reuniria, montaria um equipamento que seria lançado por avião em algum lugar remoto, exótico, algo como Bouvet, Peter First ou outro lugar qualquer que fosse interessante do ponto de vista de raridade para o DXCC. Esse equipamento, totalmente operável por controles remotos, cairia de para-quedas num ponto previamente escolhido, claro, com bons paths para as costas leste e oeste dos USA, abriria seu invólucro, abriria os coletores de energia eólica e solar, carregaria suas baterias, esticaria uma vertical até a frequência desejada e faria os contatos, decodificando automaticamente RTTY, CW e até mesmo os fonéticos internacionais; o log seria enviado por satélite para os operadores da estação remota que os validaria e enviaria os cartões QSL. Toda a tecnologia para isso, lembrava o artigo, estava dominada e ao alcance de todos, era apenas uma questão de custo. Seria esse o fim das expedições? Ou seria um novo começo?
Um ponto interessante do DX, seja ele para alcançar o WAZ, DXCC, ou qualquer outro papelucho, é que o participante estabelece suas armas e seus objetivos e, dentro dessas premissas, ele participa. As regras de um ou outro diploma nada mais são do obstáculos legais ou morais para que haja algum espírito de competição e emprestar algum interesse ao papelucho.
Pergunto para os interessados qual a diferença entre ouvir um DX pelo telefone de um amigo ou por um SDR? Qual a diferença entre operar uma estação remota ou a estação de algum amigo? As regras dizem que as estações devem respeitar os limites legais de potência de cada país. Por acaso alguém já mediu a potência irradiada das big-guns? Conheço várias que operam muito acima do limite legal. Você também as conhece? Essa limitação não é atendida e os donos das estações se orgulham de suas potências e, mais, sou capaz de apostar que a esmagadora maioria das pessoas gostaria e muito de poder transmitir com 5 ou 10 kW. As regras dizem que os DXs devem ser feitos pelo mesmo operador, mas, e se alguém vem operar sua estação e faz um país novo em alguma banda com seu indicativo, você vai ignorá-lo ou vai contabilizá-lo? Talvez você diga que é válido porque foi feito da sua estação e trará de volta a velha discussão que o indicativo deve pertencer ao operador e não a estação. Discussão tão longa quanto velha. É claro que alguns limites devem ser observados e alguns comportamentos são absolutamente condenáveis, como o de dois operadores que aparecem com QSOs em 160 metros com o sol a pino e os põem nos seus logs; não só isso mas ainda exibem orgulhosamente os QSLs. Idiotas? Penso que não, apenas tiveram seus sensos de exibicionismo acima dos sensos éticos, uma questão meramente aritmética.
Quando comecei a caçar países há mais de quarenta anos eu nem suspeitava da existência do DXCC, fiquei sabendo disso uns três anos depois quando um amigo me perguntou se eu já tinha 100 países confirmados, contei os cartões e respondi que tinha 134 e ele então me disse para mandá-los para o endereço da ARRL que eu ganharia um diploma. Mandei e vários meses depois recebi um canudo com o diploma dentro, enfiei o papelucho numa pasta de onde nunca mais saiu. Nunca dei importância ao papel em si, mas, muito, ao objetivo que eu estabeleci: falar com todos os países do mundo. Terminei a empreitada há 10 anos e não tenho mais objetivo definido, continuo a fazer DX porque gosto e continuarei fazendo enquanto o gosto durar; os resultados são e continuarão sendo mera consequência da minha permanência no ar. O que penso de operação remota? Nada. A discussão é inócua.
73 DX de PY2YP - Cesar

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Um janeiro quente

O mês de janeiro começou morno, sem graça, nada de novo nas bandas, apenas a expectativa de que ao seu final a movimentação deveria esquentar com FT5 e A5 ambas programadas e muito aguardadas. Para mim a expectativa de dois países novos em 10 metros me deixou com os dedos duros, apesar do A5 estar previsto apenas em fonia, mas ainda assim novo na banda. Nos 10 metros a possibilidade de fazer um único país no ano já é, em si, remota, fazer dois é um sonho louco, perdê-los, um pesadelo. Eu preciso de 6 países em 10 metros e apenas 4 em 15 metros; Amsterdam eu preciso nas duas bandas. É este o peso desta expedição: duas bandas difíceis e em uma delas, 10 metros, praticamente impossível.
Alguns dias antes da expedição preparei um mapa de MUF para o Sérgio, PP5JR, levar para sua operação em Bhutan. Ao elaborar a previsão aproveitei para estudar cuidadosamente as possibilidades em 10 metros, única banda que me interessava. O resultado foi claro: por volta das 12:00 UTC com possibilidades dobradas, via LP e SP, mas ambas com as mesmas intensidades de sinal: próximas de zero, ligeiramente acima do meu nível de ruído. Apesar disso fiquei otimista, o Sérgio é experiente e iria ouvir os brasileiros com atenção.
Já para Amsterdam as previsões eram desanimadoras, em 15 metros sinais meramente audíveis e em 10 metros simplesmente não havia MUF; possibilidades remotas de propagação marginal com sinais raquíticos quando muito. Ausência total de propagação em long path. Este era o quadro.
Meu primeiro QSO com Amsterdam foi com FB8ZM em agosto de 1978 em 20 metros CW. Em setembro de 1988 eu falei com uma estação em fonia, bem cedo aqui e pela hora do almoço dele e ouvi: I'm sorry but I must leave for working. I'll be back tomorrow. Não me deu a reportagem, não me colocou no log e tampouco voltou no dia seguinte ou em qualquer outro, sumira. Só fui trabalhar Amsterdam em fonia em 1998 na expedição de FT5ZH, fiz em 80, 40 e 20 metros todos em fonia. No domingo, 26 de janeiro, fui para Indaiatuba logo cedo e devidamente municiado com todas as ferramentas indispensáveis para trabalhar as tão esperadas expedições: mapas de MUF, SDBW, NDBW, um FT-1000MP Mark V de backup e o gato.
Domingo, 26 de janeiro. Depois de desmontar uma TV de 32" para retirar a placa T-Con que pifou, ajeitei a estação, verifiquei as antenas, amplificadores, limpei o manipulador e arrumei toda a bagunça; os dois transceivers estavam devidamente revisados e alinhados, ambos com as recepções impecáveis e com filtros prontos e ajustados para enfrentar qualquer pile-up. Nessa mesma noite trabalhei FT5ZM em 40m CW apenas para colocar meu indicativo no arquivo de master call deles e facilitar o super check partial, mas tanto a banda quanto o modo não me interessavam em nada.
Segunda-feira, 27 de janeiro. Acordei com o gato andando nas minhas costas. Treinei o gato para me acordar quando o sol está a precisamente -6º de elevação, bem no gray-line náutico. É um despertador eficiente, não faz barulho e não precisa dar corda. Levantei, peguei a vasilha de ração do gato e fui para o shack. O gato gosta de ficar na janela e assiste o gray-line com grande atenção, fica vendo a mudança de cores da vegetação, os pássaros e toda a movimentação do amanhecer, é sem dúvida sua hora favorita do dia; e minha também porque o gray-line sempre traz boas oportunidades. Sintonizei o receptor em 15 metros e comecei o dia. Sinal fraco em 15 metros CW e pile-up monstruoso, vociferante, tonitruante. Impossível. Chamar aqui, pensei, será pura perda de tempo e desgaste das válvulas. Mudei para 10 metros. Sem sinal mas pile-up mais bravo do que em 15. Nada a ser feito. Ainda assim passei boa parte da manhã estudando o comportamento dos operadores e ali pelas 11 horas desliguei tudo.
Terça-feira, 28 de janeiro. Enfadonha e assustadora repetição. Nas bandas altas a mesma situação, sinais copiáveis, muito fracos e pile-up desencorajadores. Os europeus comandando o espetáculo, por volta do meio-dia desliguei tudo e fui cuidar da vida.
Quarta-feira, 29 de Janeiro. Recebo um telefonema informando que o FT5ZM está forte em 17 metros fonia. O gato e eu, ambos meio sonolentos fomos para o shack, o gato irritado por ter perdido hora e eu animado, liguei o linear, o computador e o rádio, nessa ordem e procurei pelo sinal do FT5. Lá estava ele com um excelente S6 e sem interferência lateral, ruído ou qualquer outra coisa que pudesse atrapalhar. Linear aquecido e sintonizado, tudo pronto mas vejo que falta o principal: o microfone. O microfone não fica na mesa para não atrapalhar e nessas horas sempre me pergunto por onde anda o maldito microfone. Agora sim, estou pronto para começar a chamar, ele está atendendo exatamente 10 acima e não oscila muito, está voltando ali mesmo. Lá pela quinta ou sexta chamada o operador com forte sotaque russo me atende e chama only South America durante vários segundos mas como não há qualquer outra estação deste canto do mundo ele volta para os europeus e vez por outra chama only SA. Ao cair da noite escuto forte em 14.185 e trabalho sem grandes dificuldades.
A noite, ao final da novela fui para o rádio e os escuto forte em 40m SSB. Um QSO dos mais desnecessários, já tenho confirmado na banda e no modo, mas chamo umas duas vezes e vou para o log às 22:04 local. Nada demais mas pelo menos alivia a tensão. O amanhecer deles é exatamente nesse horário, portanto mais alguns minutos e eles terão que encerrar em 40 e 80 metros. Fui para 10.115, preparei o linear e fiquei esperando, ouvindo o silêncio, vez por outra alguém se atrevia a usar a frequência mas era enxotado. Esperei por exatos 35 minutos para, finalmente, ouvir CQ CQ de FT5ZM 3 UP. Chamei sem mais ninguém atrapalhando e na segunda chamada ele me atende. Agora sim, as coisas estão pegando rumo, tenho duas bandas novas com 5 QSOs, mas, nas bandas altas a situação estava a requerer imediatas e eficazes providências. Fui dormir mais animado.
Quinta-feira, 30 de Janeiro. Nada. Zilt. Passei a manhã toda ouvindo em 15 e 10 metros, mas sem chance. Vez por outra, teimosamente, batia meu indicativo mas sem a menor possibilidade. A continuar assim terei que ficar aqui duas semanas e isso é absolutamente impossível, tenho compromissos em SP e não posso ficar a disposição de Amsterdam. Ligo para um amigo e combinamos enviar alguns e-mails para os pilotos, eu fiquei encarregado de mandar para o Stan, KH6CG que conheço há muitos anos e explico a situação: as antenas quando viradas para a Ásia, USA ou Europa, a América do Sul fica sempre de lado com perda entre 25 e 30 dB, lembrando que 30 dB equivale a multiplicar a potência de transmissão por mil, ou o sinal que nos chega tem potência mil vezes menor do que na Europa, por exemplo. Quando os operadores viram para a costa leste dos USA, por onde poderíamos aproveitar uma parcela do lóbulo de irradiação, a propagação já se foi e não temos mais possibilidade. A continuar assim, explico, eles terminarão a expedição sem um único contato com a nossa região em 15, 12 e 10 metros. Para ilustrar o problema mando acompanhando o e-mail um mapa azimutal centrado em Amsterdam. Providências tomadas só nos resta aguardar.
Sexta-feira, 31. Desta vez o gato não perdeu hora e fomos para o shack antes das 06:00. Nada nas bandas altas, apenas aquele ruído de ovo frito tão característico de banda fechada. Por volta das 06:20 15 metros CW começou a acordar e os sinais melhoraram rapidamente; comecei a chamar com todos os watts disponíveis e, finalmente, às 06:37 o país #346 em 15m foi para o log. O dia prometia, sem a menor das dúvidas eles viraram a antena. Depois que trabalhei fiquei algum tempo escutando e o sinal chegou a honestos e reais S6. Muito bom. Fui tomar café e quando voltei o S-meter em 10 metros já dava sinais de vida. A pancadaria estava grande mas às 08:21, igualmente, o país #346 em 10 metros foi para o log com um lindo e sonoro 5NN. Os pilotos foram eficientes, a expedição virou a antena e deu tudo certo.
Ao cair da tarde escutei A52JR em 40 metros. Excelente, o Sérgio está no ar e amanhã tenho que estar cedo para aproveitar a propagação da manhã em 10 metros.
Sábado, 01 de fevereiro. O dia começa cedo, às 07:09 consegui trabalhar o FT5ZM em 17 metros CW com muita facilidade. Fui para os 12 metros e por volta das 08:45 horas escuto o mesmo operador de sotaque russo atendendo exatamente 10 acima, como no dia em que fiz em 17m. O sinal bom deu a entender que as antenas ainda estavam sendo viradas para cá de tempo em tempo. Chamei algumas vezes e fui para o log exatamente às 08:59. Agora sim, tenho Amsterdam em todas as bandas e me falta apenas um QSO em RTTY para colocar o país ao mesmo nível da Bolívia. Mas ainda há outros peixes para serem fritos portanto vamos ao trabalho.
Apareceu um spot informando que o Sérgio estava em 15 metros e fui lá ouvir. Sinal minúsculo pelo SP, virei para o caminho longo e chegou bem. Falei com ele e pedi para ir para 10 metros. Ele disse que em meia hora estaria em 28.430, enquanto esperava voltei para 12 metros e escutei o operador russo informar que iria para 15 metros SSB. Fui junto e aproveitei o pile-up reduzido e o trabalhei sem dificuldade às 09:31. Voltei para os 10 metros e estacionei em 28.430 para esperar pelo Sérgio, antena pelo caminho curto, que era minha aposta inicial; às 09:48 escuto A52JR chamando geral e falo com ele sem dificuldade, sinais pequenos mas audíveis. País #347 em 10 metros no log.
Domingo, 02 de fevereiro. A vantagem de operar RTTY em FSK está em aproveitar todos os filtros do rádio, cair exatamente na frequência de transmissão do spot além do aumento na legibilidade de sinais fracos, eu diria que é um equipamento indispensável para quem quer fazer o DXCC em RTTY. E lá estava o FT5ZM em 21.080 escutando acima. Mas quanto acima? Com a antena apontada para Amsterdam os sinais da Europa não eram decodificados e não conseguia escutar o contemplado. Um horror. Por sorte o PY2NQ trabalhou em 21.084 e me deu uma indicação para onde estacionar meu TX, depois de umas dez ou quinze chamadas ele me atende com toda clareza. Agora sim, posso arrumar a tralha e voltar para São Paulo. Amsterdam está definitivamente fora de qualquer preocupação.
Expedições como essa, operadas de locais cuja direção de antenas nos colocam em nítida desvantagem com as zonas de maior interesse, exigem muito preparo, dedicação, disponibilidade de tempo e uma boa dose de sorte. Apenas 3 estações sul-americanas conseguiram trabalhar FT5ZM de 10 a 80m, todas do Brazil. Infelizmente em 160 metros não houve condições e nenhuma estação brasileira trabalhou.
73 DX de PY2YP - Cesar

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Garimpo

Há 40 anos quando comecei com o DX ninguém se preocupava em trabalhar os países em diferentes bandas, nem mesmo em diferentes modos, um QSO era mais do que suficiente para contar o país no DXCC. É claro que quando podíamos trabalhávamos o mesmo país pelo menos duas vezes para ter certeza de que não receberíamos o QSL de volta com o temido NIL, not in log, ou como alguns managers escreviam em latim: nihil; este segundo QSO era conhecido como insurance QSO. Nas mais das vezes trabalhávamos primeiro em CW onde os pile-ups eram mais organizados, e acho que ainda são, e depois tentávamos em fonia. E isso era tudo.
O dia primeiro de janeiro de 1975 foi um marco para o DXCC, começava nesse dia o DXCC em CW, isto é, os QSOs em CW só valeriam para o diploma se feitos após o dia primeiro de janeiro desse ano, os QSOs feitos em CW antes dessa data contavam apenas para o diploma DXCC misto. Isto nos obrigou a trabalhar e confirmar novamente os países que tínhamos naquela modalidade. Alguns DXers trabalhavam as bandas para o diploma 5 bandas DXCC, criado em 1968, onde era necessário confirmar 100 países em cada uma das bandas: 10, 15, 20, 40 e 80 metros sendo possível utilizar todos os contatos feitos após 15 de novembro de 1945. Uma vez conseguido o diploma eles paravam por aí eis que o diploma 5BDXCC não era endossável, isto é, de nada adiantaria ter 250 países em cada banda. As bandas WARC: 12, 17 e 30 metros ainda não estavam liberadas para os radioamadores.
Os logs em papel não ajudavam muito nas estatísticas e não sabíamos exatamente o que tínhamos, exceto é claro, o número de países nas modalidades CW e fonia. RTTY nem pensar porque não haviam expedições para a modalidade por razões um tanto quanto óbvias, era praticamente impossível levar uma máquina de telex de 200 quilos adaptada para RTTY, os praticantes da modalidade eram poucos e taxados de malucos e não se importavam muito com o DXCC.
Com o surgimento dos computadores pessoais e os softwares de log o quadro mudou completamente, ao pressionar de umas poucas teclas lá estava o log: limpo, organizado, com todas as informações possíveis e estatísticas confiáveis. O problema passou a ser digitar os logs velhos para espelhar a situação real do DXer. É claro que facilidade demais acaba por prejudicar e é comum encontrar logs eletrônicos cheios de lixo: QSOs sem identificação de país, modalidade errada, além das horríveis duplicidades, enfim, ter um log eletrônico não significa ter um log correto. Do lado da ARRL os computadores permitiram melhor controle dos diplomas e permitiram a criação de diplomas DXCC por banda, os modos digitais se tornaram populares e criaram o diploma Challenge, este sim, um desafio para todos, afinal alcançar a marca de 3.000 países bandas é uma tarefa para poucos, muito poucos. Eu tinha sérias desconfianças que meus logs velhos poderiam esconder alguns países bandas não cobrados à época.
Munido de toda a paciência que consegui juntar, ali por setembro de 2011, comecei a digitar os logs. Imaginei que para digitar os quase 10 mil contatos em papel levaria em torno de 50 dias corridos se tivesse a disciplina de digitar apenas 200 por dia, o que não é muito e assim fiz: reservei alguns minutos do dia para digitar a meta diária e antes do final do ano lá estava o log inteiro no computador. Os resultados foram surpreendentes, havia no log 8 países bandas que eu nem desconfiava que algum dia os houvesse trabalhados:
Comoros - D68KN 10 metros;
Navassa - KP2A/KP1 10 metros;
North Cook - ZK1MB 10 metros;
Prince Edward and Marion - ZS8MI 10 metros;
Serrana Bank - HK0AA 10 metros;
Bouvet - 3Y5X 15 metros;
Canal Zone - KZ5OJ 15 metros.
Iran/Iraq Neutral Zone - 8Z4A 15 metros;
Para confirmar ZS8MI bastou enviar o log para o LOTW e lá veio a confirmação; ZK1MB não pagou mas logo em seguida trabalhei E51MAN que pagou via LOTW ao final da expedição; KP2A/KP1 foi fácil, mandei um e-mail para o operador, ele me indicou o manager e pronto; o manager de 3Y5X estava trabalhando fora do seu país, demorou um pouco mas pagou; D68KN deu um pouco mais de trabalho mas descobri um dos operadores na Austrália e recebi o cartão.
Infelizmente não consegui confirmar HK0AA, 8Z4A e KZ5OJ. O primeiro, Serrana Bank, teve seu log queimado pela viúva do manager; a Mary Ann Cryder, WA3HUP, dos melhores managers de todos os tempos, adoeceu e não pôde confirmar a Zona Neutra. Já para a Zona do Canal, KZ5, pelos meus registros eu tinha mais um QSOs em 15 metros SSB e marcado como QSL RCVD: KZ5EJ, talvez perdido nas caixas de QSLs dos USA. Se eu conseguisse achar esse QSL minha situação em 15 metros melhoraria em muito, iria para 346 podendo alcançar 350 quando conseguir trabalhar os 4 que faltam.
Reuni novamente toda a paciência do mundo e comecei a procurar o maldito cartão da Zona do Canal. A única forma de acha-lo seria procurar QSL por QSL, um por um de forma a não ficar um único cartão de fora. Já que iria manusear milhares de QSLs, decidi digita-los todos: marcar os QSOs como confirmado; incluir no log os QSLs que havia recebido em concursos da época dos logs em papel; separar as ilhas para algum dia pedir o IOTA, ou simplesmente corrigir os dados dos QSOs que estivessem errados. Foram 14.992 QSLs digitados; os QSOs novos no log foram devidamente enviados para o LOTW. Depois disso, limpei o log retirando os QSOs duplicados, corrigi dados errados cruzando com o log em papel. Para finalizar copiei para outro arquivo de log alguns QSOs que nunca foram validados para o DXCC: XZ9A, P5RS7, 9C0X, ZC3HGN dentre outros; no log original esses QSOs foram marcados com RST igual a zero, para que o DX4WIN os considerasse inválidos, neste caso o software mantém o QSO no banco de dados mas este não é considerado nas estatísticas; se algum dia isso vier a ser alterado como foi o caso de 7O1A basta digitar 59 ou 599 no campo RST e tudo volta ao normal. Igualmente foram transferidos para o outro log os QSOs com estações que algum dia tiveram a pretensão de se tornarem países: Transkei, Siskei, Bophutatswana, Snake Island, Guemes Island e outros mais. Enfim, o log ficou pronto, com as ilhas marcadas e separadas, sem contatos duplicados, tudo limpo e organizado. Ficou um log de dar água na boca de qualquer DXer que um dia teve seus logs em papel. Agora eu sei que tenho QSLs suficientes e diferentes para 3 diplomas 5BWAZ; sei quantos QSOs eu tenho por países cabeludos e em quais bandas, quais confirmados, quantas ilhas confirmadas etc. Tudo ajustado e perfeito mas o QSL da Zona do Canal não apareceu.
Digitar os logs e os QSLs foi uma volta ao passado, ao tempo em que eu podia ficar acordado até tarde ou levantar durante a madrugada para procurar pelo pile-up de alguma expedição, ou mesmo lembrar das longas conversas com americanos e europeus para saber as novidades ou possibilidades de uma operação em Burma, Albânia, China e outros países impossíveis. Foi também uma dolorosa lembrança ver a letra nos QSLs de vários amigos que já se foram. Junto com alguns QSLs haviam cartas ou bilhetes de operadores agradecendo o bate-papo ou trazendo notícias; num desses bilhetes havia um escrito por DJ7ZG agradecendo pela ajuda com um QSO com o Anibal, operador da Estação Científica Corbeta Uruguay, mas esta é outra história para um outro texto.
73 DX de PY2YP - Cesar

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Parâmetros para etiquetas

Os usuários do DX4WIN certamente já se depararam com um pequeno problema na impressão de etiquetas que vêm em folhas. Eu pelo menos tive esse problema durante anos até que decidi estudar o problema com mais atenção e finalmente resolvê-lo. O problema a que me refiro acontece nas últimas linhas de etiquetas quando o indicativo começa a ficar muito próximo da borda superior até que, em alguns casos, fica com a parte superior das letras invadindo a etiqueta da fila acima. Se alguém já teve esse problema aqui está a solução.
Inicialmente é preciso entender o significado de cada um dos parâmetros utilizados pelo DX4WIN: FILE | DATABASES | LABELS. Eu utilizo etiquetas da Pimaco modelo 6180 com 30 etiquetas por folha. Os parâmetros citados neste exemplo são os que uso para impressão nesse modelo mas podem facilmente ser adaptados para quaisquer outros. Os valores a seguir são os valores default da etiqueta 5160, similar à 6180:
Number across: 3 é o número de colunas de etiquetas;
Number down: 10 é o número de linhas de etiquetas;
Label width: 66,67 mm é a largura da etiqueta;
Label height: 25,40 mm é a altura da etiqueta;
Horizontal pitch (distância entre dois objetos): 69,85 mm é a distância entre as colunas;
Vertical pitch: 25,40 mm é a distância entre as linhas;
Spacing left: 4,78 mm é a margem esquerda ou a distância entre a borda da etiqueta e borda do papel;
Spacing top: 12,70 mm é a margem superior ou a distância entre a borda superior da etiqueta e borda do papel;
Horizontal Shift: 0,00 mm é distância entre o texto e a borda da etiqueta ou o valor usado para deslocar o texto a partir da borda esquerda da etiqueta. Este valor altera apenas o texto dentro da etiqueta e não a localização da etiqueta no papel, é como se fosse a margem dentro da etiqueta;
Vertical Shift: 0,00 mm é distância entre o texto e a borda superior da etiqueta;
Com estes valores a impressão não fica boa, como eu disse no início, o texto começa a "subir" até "comer" um pedaço do indicativo. Aparentemente há um problema no passo da impressão, isto é, a impressão na 2a linha de etiquetas desloca um pouco, na 3a linha desloca mais um pouco e assim por diante. Inicialmente tentei modificando os valores das margens, tanto esquerda quanto superior. Deu certo para o deslocamento horizontal, mas no vertical o problema permanecia. Em seguida alterei os valores do deslocamento (shift) e o resultado foi exatamente o mesmo. Por que o problema estava apenas no deslocamento vertical? Seria algo relacionado com o driver de impressão?
O valor do pitch, tanto horizontal quanto vertical, compreende a distância efetiva entre duas etiquetas alternadas, isto é, a distância entre a etiqueta da primeira coluna e a da terceira coluna, ou, entre a primeira e terceira linha, incluindo nessa conta o corpo da etiqueta da segunda linha ou coluna. Uma análise mais cuidadosa dos valores default apontaram algo estranho: comparando a largura da etiqueta com o pitch verifiquei que o pitch era ligeiramente maior do que a largura da etiqueta, enquanto a distância vertical (pitch) era exatamente igual à altura da etiqueta. Hummm, o fabricante de etiquetas estava afirmando que a distância vertical entre as etiquetas era igual a zero. Peguei uma lupa e examinei cuidadosamente uma folha nova e vi que havia uma pequena diferença, pequena, mas não era zero. Identificado o problema bastaria aumentar o pitch vertical, mas quanto? Como o deslocamento ocorria 9 vezes, número de espaços entre as 10 linhas, essa pequena diferença era multiplicada por 9. Como o deslocamento final era de pouco mais de 2 milímetros bastaria dividir o deslocamento final por 9 e acrescentar ao valor default do pitch. Pronto, problema resolvido.
Abaixo os valores que funcionaram bem para mim:
Number across: 3;
Number down: 10;
Label width: 66,67 mm;
Label height: 25,40 mm;
Horizontal pitch: 69,85 mm;
Vertical pitch: 25,64 mm;
Spacing left: 4,78 mm;
Spacing top: 12,70 mm;
Horizontal Shift: 3,00 mm;
Vertical Shift: 1,00 mm;
Para que coubessem 3 QSOs em cada etiqueta adotei a fonte Consolas - que lembra um pouco as máquinas elétricas da IBM e tem o zero cortado - corpo 9 para o indicativo de chamada da estação e corpo 8 para os dados do QSO.
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 26 de maio de 2013

Hipérbato

A civilização grega, ao tempo das cidades-estado, desenvolveu-se em níveis nunca antes experimentado pelos povos ocidentais, o progresso era tanto que as artes tinham lugar garantido na lista de preocupações e no gosto do povo. Os anfiteatros eram muito bem construídos com o palco no lugar geométrico dos ouvidos da audiência de forma que o artista não precisava elevar a voz para ser ouvido, não havia amplificadores nem microfones, nem precisava, esses ambientes abertos eram uma perfeição da engenharia acústica. Lá no palco declamavam-se poesias com as mais variadas métricas. Os ouvintes batiam os pés, esquerdo e direito, alternadamente para marcar a entonação das sílabas, essas batidas eram denominadas iambós, batidas de pé de verso: uma curta e outra longa, batidas iambicas. Os gregos fizeram escola e até hoje os poetas, os de boa estirpe, usam os ensinamentos para suas métricas: sáfico, heróico, alexandrino e outros tantos. Cada linha da poesia tem que ter um número determinado de sílabas e a rima, uma coincidência de fonemas, em geral a partir da última vogal tônica de cada verso, é o que dá vida e graça ao texto. Dentre os mais variados tipos de poesia, a mais difícil, a de mais rigorismo é a parnasiana.
Um poeta parnasiano de peso - não um desses repentistas que ficam falando bobagens rimadas - não abre mão do rigorismo formal. Para conseguir a rima dentro da métrica inflexível ele acaba por fazer concessões gramaticais, ou, como querem os puristas, criar formas gramaticais para conseguirem seus intentos. Por exemplo: “Não é que o meu o teu sangue / Sangue de maior primor.”. Alexandre Herculano inverteu o texto para atender o rigorismo exigido pela sua poesia e ao inverter o texto dificultou o entendimento. Tivesse escrito: “O teu sangue não é de maior primor que o meu.” o entendimento do texto seria mais fácil mas o rigorismo poético não seria atendido e isso os parnasianos não admitem, não fazem concessões. A figura gramatical para a inversão do texto chama-se hipérbato que basicamente é o mesmo que anástrofe, nome que se dá para inversões curtas.
Um DXer de peso, sério, jamais abre mão dos seus princípios éticos, dos rigorismos formais do DX. Não pode conceber ou admitir colocar no seu log um contato que não tenha sido feito por ele mesmo. A gronga é para aquela gente advinda de outras freqüências, daquelas que compartilham com seus iguais: entregadores de pizza, taxistas, caminhoneiros e outros tantos. Enquanto esse rebotalho humano fique restrito às frequências altas, lamentamos mas passamos ao largo, não nos misturamos e vamos levando a vida. O diabo é quando um desses mal feitores radiofônicos, isso mesmo, esses foneiros, se metem a operar DX em bandas baixas. Bandas onde o objetivo não é só contar países ou zonas, antes, o objetivo é o contato em si. Luta-se pelo QSO para alcançar distâncias inimagináveis em 80 ou em 160; esforça-se para escutar sinais fracos dentro do QRN que judia dos tímpanos; concentra-se até a exaustão para copiar o indicativo, aos poucos, letra por letra até completá-lo. Ars per ars, a arte pela arte. Os DXers parnasianos não admitem concessões de qualquer espécie: inverter a ordem natural das coisas conseguindo o QSL sem ter feito o QSO; declarar uma operação QRP e operar com potências vinte vezes maiores; participar de contestes em categorias não-assistidas e operar com o cluster à sua frente ou, pior, participar de competições sem ao menos estar presente na sua estação. Essa gente, essa espécie de gente, esses foneiros, não passam de repentistas de feiras-livres, não conseguem o respeito da comunidade, faltam-lhes muito, faltam-lhes talento e capacidade, sobram-lhes apenas o desejo de subir o Olimpo, reservado apenas para aqueles que não fazem concessões: os parnasianos.
73 DX de PY2YP - Cesar

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Experimentações Teóricas

Um dos maiores, senão o maior, problema no projeto de antenas é o tamanho físico resultante. Não há como escapar: mais ganho = mais tamanho. Aqui tamanho é documento, é inexorável. Não existe mágica o tamanho de uma antena para as bandas de 80 ou 160 metros será sempre muito grande. Bem, pelo menos esta é a regra decorrente dos livros de física.
Há vários anos, quando estava projetando o meu sistema para 80 metros, tentei reduzir o tamanho do mostrengo mas foi tudo em vão. Fiz o projeto seguindo os preceitos básicos e tudo funcionou dentro do esperado, mas em termos físicos o resultado foi uma antena ocupando cerca de 4.000 metros quadrados o que é um insulto ocupacional. Apesar do excelente desempenho da 4 square não desisti da busca de algo mais compacto, sem prejuízo do desempenho, e talvez com algum ganho adicional. Se as leis da física não permitiam a redução do tamanho, em detrimento do ganho, imaginei que a química pudesse dar alguma contribuição à solução do problema, afinal as leis agora passam para a circunscrição da físico-química, o que pode, em tese, significar um avanço.
A energia emitida por uma antena é gerada no entorno, na superfície, do elemento irradiante, isto é lei da física e imutável, mas, se excitarmos um gás ou uma mistura de gases poderemos ter essas irradiações em camadas concêntricas, como se fossem tubos montados um dentro do outro, e portanto a energia irradiada poderá ser multiplicada pela energia gerada nas camadas inferiores diminuindo o comprimento físico e adicionando um ganho, se fossemos utilizar o jargão do mercado financeiro poderíamos denominar de operação alavancada. Ora, o momento angular de um corpo é a grandeza física associada à rotação e translação desse corpo, assim, um corpo girando em torno do seu eixo, acaba por relacionar sua distribuição da massa com sua velocidade angular; por conseguinte a quantidade de movimento angular é a grandeza conservada sob rotações no espaço tridimensional, decorrente da sua isotropia, obviamente advinda de simetrias geométricas: quantidade de movimento linear, energia e quantidade de movimento angular. Com estes conceitos em mente, comecei a estudar o movimento angular dos íons resultantes de alguns gases que devidamente excitados em uma dada frequência pudessem responder linearmente, e em camadas, durante um tempo indefinido, isto é, uma vez excitados conservariam o momento angular e a distribuição em camadas até a interrupção da energia aplicada. Vale lembrar que a ionização do gás só acontece com potências superiores a 800 watts aplicados no conector da antena, não é na saída do amplificador. A contra-partida disso são as variações isotérmicas resultantes da excitação do gás sob as elevadas tensões da RF aplicada; segundo a lei de Huyghens nas colisões elásticas entre as moléculas o produto da massa pelo quadrado da velocidade permanece constante; desta forma, a adição de um sal ionizante proverá à mistura um fator para arrefecimento sem reduzir o número de íons livres. Depois de muito estudo teórico e muita simulação foi chegada a hora de montagem do primeiro protótipo. Os resultados iniciais foram animadores, alguns gases realmente se comportaram como esperado mas com várias falhas para o fim a que se destinavam. Depois de várias simulações teóricas consegui a mistura que respondeu às minhas expectativas: manutenção das características fisico-químicas após a redução de volume, manutenção do momento angular sob variações intensas de temperatura e principalmente a estabilidade da frequência resultante. Este último ponto era crucial e foi o que demandou mais experimentos, afinal, a variação da frequência ressonante sob quaisquer determinantes poderia prejudicar a relação de ondas estacionárias. A mistura de gás resultante é composta de xenônio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e bário; as proporções de xenônio e os sais de peróxido de bário, foram fundamentais para o estabelecimento do intervalo de variação de temperatura em níveis térmicos aceitáveis e, principalmente, garantido a linearidade das isotermas, por outro lado a adição de fósforo garantiu a formação de camadas concêntricas permitindo a geração de energia em camadas na mesma dimensão linear. A mistura final foi batizada de Xenóphobo por conta dos símbolos dos elemento químicos dos componentes: Xe, N, O, PH e B.
O software utilizado nas simulações foi o NEC5 (Numerical Eletromagnetic Code) versão 5.2 cujos cálculos são baseados no método dos momentos aplicados às modelagens por segmentos de fio ou por segmentos de área; esta versão só trabalha em ambiente Unix sem interface gráfica, apenas por linha de comando. Para operar as simulações de momentos em volumes compartimentados específicos foi utilizado um addon escrito pelo russo Lev Yashin, UA1KGW, professor de geometria tridimensional da universidade de Leningrado. Depois de várias simulações uma antena yagi de 3 elementos para 14.175 kHz foi configurada com os elementos em 1,80m afixados numa gôndola de 2,73m. O ganho frontal é de 10,83 dBi e a relação frente x costa de 28,3 dBi. O comprimento dos elementos é constante variando-se apenas as quantidades de fósforo e peróxido de bário no refletor e no diretor.
O protótipo foi montado com lâmpadas fluorescentes usadas presas em ripas de madeira. Os elementos e gôndola são interligados com fios nas configurações clássicas das yagis. O gás resultante apresentou impedância de 198 ohms exigindo um balum 4:1 para seu casamento com a linha de alimentação. Foram adaptadas válvulas pneumáticas nas pontas das lâmpadas para inserção e retenção do gás. Os gases componentes da mistura foram todos com teor de pureza superior a 99% e adquiridos junto a um fornecedor de gases industriais. O desempenho do protótipo foi excepcional principalmente na recepção onde a total ausência de elementos metálicos reduziu a sensibilidade à captação de ruídos externos, principalmente dos famosos ruídos de linha devido ao nulo obtido pelo diferença angular entre o vetor preponderante da rotação molecular do gás e o vetor do ruído elétrico; a sensibilidade de recepção ficou melhor do que -165 dBw. Infelizmente o protótipo teve que ser desmontado devido a precariedade da montagem e do risco de queda. Não pretendo montar outra antena para 20 metros mas o projeto está a disposição dos interessados.
A redução física do elemento irradiante me animou a um novo projeto que se encontra atualmente em fase de testes: um array de 8 verticais para 80 metros com altura de 8,96 metros cada. A configuração geométrica é composta de 2 quadrados concêntricos, o interno com 8,96m de lado e o externo com 26,88 metros de lado o que me permite utilizar os 5.000 metros de radiais existentes da 4 square de torres. Com os gases corretamente configurados a antena trabalha com 7/8 de onda apresentando ganho frontal de 9,6 dBi e relação frente x costa de 30 dBi com ângulo de saída em 16 graus. Os tubos estão em PVC de 250mm de diâmetro para diminuição do Q de entrada e consequentemente estacionárias mais baixas nas extremidades da faixa, a exemplo do que acontece com as verticais em torre; os tubos deverão ser quimicamente tratados devido à pressão osmótica do gás quando submetido a 1.5 kW. A potência ideal de operação é em torno de 1.200 watts onde a ionização é excelente e a temperatura se mantém relativamente estável mesmo em câmbios longos. Não foram testados comunicados em RTTY onde as simulações teóricas indicam um nível de potência entre 800 e 900 watts, próximos ao limite inferior da banda de potência ionizante.
Ainda falta muito para resolver todos os problemas mecânicos, armazenamento de gás e outras dificuldades para montar um sistema que tenha durabilidade, estabilidade e outras necessidades operacionais, mas os resultados são animadores. Se eu obtiver sucesso nesta configuração o próximo passo será um array de verticais para 160 metros com ganho frontal da ordem de 6,5 dBi mas aqui os custos são um tanto quanto desanimadores e não poderei montar protótipos e antenas de testes, terei que montar o projeto em definitivo devido aos altos custos envolvidos.
Concluindo, é possível reduzir o tamanho físico do elemento irradiante e dos parasitas, mas o volume de gás equivalente será sempre o mesmo; o componente de maior custo é o gás, porém ao aumentarmos a pressão para manutenção do volume equivalente, conforme nos ensina sir Robert Boyle, os custos de retenção do gás aumentam exponencialmente devido a vazamentos e tensões osmóticas incidentes, assim, penso que a relação ideal entre volume e custo deva estar da ordem de sessenta e cinco por cento de redução o que já um valor expressivo.
Os interessados nos projetos podem solicitá-los por e-mail cujo endereço consta do meu site, será um prazer compartilhar os resultados obtidos.
73 DX de PY2YP - Cesar