domingo, 2 de setembro de 2012

Esperando Godot

Samuel Beckett escreveu a peça de teatro Esperando Godot em 1952. A peça retrata o encontro ao acaso, ao pé de uma árvore, de dois vagabundos: Estragon e Vladimir, para esperarem por um certo Godot, não sabem quando ele chegará e nem sequer sabem verdadeiramente por que esperam. Mas estão esperando Godot. Ambos, desesperançados e quase desesperados já não podem viver sem Godot. É este o pretexto dos dois para viverem juntos e esperarem juntos. De vez em quando, um deles tenta separar-se do outro, fazendo uma espécie de excursão, mas sempre volta. Nada acontece. Só resta esperar. Até quando?
A peça foi apresentada pela primeira vez em Paris a 13 de janeiro de 1953 no pequeno Théâtre de Babylone, um teatro de vanguarda. Ficou em cartaz durante o ano inteiro. Teve o mesmo sucesso em Londres e Nova York. A peça foi traduzida para dezoito línguas e representada em todos os teatros do mundo. É um sucesso inexplicável, misterioso. Uma peça cuja ação consiste em não agir, o enredo é este: não acontece coisa alguma. Não só fez sucesso como cunhou uma expressão: esperando Godot, muito utilizada pelos pseudo intelectuais para expressarem qualquer espera infrutífera ou mesmo para a busca de um objetivo que sabe-se de antemão ser inalcançável.
Há algum tempo um aspirante a DXer me perguntou qual o segredo para atingir o topo do DXCC. A resposta não poderia ser mais simples: não há segredo. A única coisa que o DXer tem que fazer é permanecer ativo, não parar. Se olharmos para os quadros do DXCC vamos perceber uma grande quantidade de operadores que desistiram a poucos países do topo, morreram na praia, ficaram sem trabalhar cinco ou seis países, pouco mais, pouco menos. Em geral acontece assim: o DXer fica um ano sem fazer um país novo, nada acontece. Ele já não visita a estação com o mesmo entusiasmo de sempre. Passam dois anos e ele realmente deixa de operar por algum tempo; o livro de registro mostra um QSO aqui e outro acolá. Mais um ou dois anos e a antena começa a mostrar a falta de manutenção, até que um elemento se quebra pelo vento ou por alguma pipa desavisada. O rotor pára de funcionar, o linear na última vez que foi ligado fritou a chave de onda e a estação fica quase inoperante. É assim que o DXer desiste, aos poucos. O interesse pela caça aos países dá lugar a outro hobby qualquer, não demora e o DXer vende alguns itens da estação. Afinal Coréia, ou Navassa, ou quaisquer outros que o levariam ao top não vão sair mesmo, justifica ele. Quando finalmente sai uma expedição ou alguma operação solo, o infeliz já não pode trabalhar o país, ou pior, nem ficou sabendo. Os casos são inúmeros e me abstenho de citá-los, aliás, nem é preciso, eles desistiram há muito tempo.
Como em qualquer atividade as dificuldades surgem a todo instante, os percalços estão aí para serem vencidos. Ninguém fica rico do dia para a noite, claro, excetuam-se aqui os sortudos que ganham na loteria e os corruptos de todos os matizes. Como todas as grandes obras, constrói-se lenta e continuamente, os países vão sendo confirmados um a um. A nossa atividade é inteiramente dependente dos rumos que os políticos dos diversos países dão aos seus governos, com especial destaque aos países ditos democratas. Basta colocar república democrata no nome do país para se ter certeza de que o governo é tudo: totalitário, corrupto, fechado, menos democrata. É preciso apontar exemplos? Basta olhar o mapa geopolítico e lá estão eles, com principal destaque para os continentes asiático e africano. Os ditadores sul e centro-americanos, embora igualmente corruptos, sempre foram mais magnânimes nas concessões de licença para operação de rádio, o que de certa forma é um tanto quanto inexplicável, mas agradecemos assim mesmo. Há muitos anos era impossível um QSO com China, Albânia, Burma, Yemen, Lybia e outros tantos países sob governos democráticos. Nós DXers, ficávamos a esperar indefinidamente por esses e tantos outros. Para termos um pálida idéia de como era o mundo à época da guerra fria basta lembrar que para trabalhar qualquer um desses países o tempo médio de espera era de algo perto de 20 anos. Eu esperei 14 anos para trabalhar China, Moçambique, Laos, Cambodja e Vietnam; 17 anos para trabalhar Burma e Albânia; 23 anos para conseguir fazer Heard Island e Kermadec e, por último, 30 anos para conseguir Andaman. Este último saiu no começo da década de 80 mas eu havia ficado QRT entre janeiro de 1983 a abril de 1988 não pude trabalha-lo. Nesse mesmo período eu perdi, além de Andaman, Lybia, Heard e Kermadec que igualmente tiveram operações curtas. A paradinha custou caro.
Os tempos mudaram, hoje os países de maior tempo de espera, à exceção da Córeia do Norte, são aqueles que demandam maiores custos para uma expedição, como é o caso de Heard e Bouvet ou de países que têm restrições ambientais para permitirem uma expedição: Navassa, Kingman Reef e os nossos conhecidos Rochedos que recentemente começaram a sofrer restrições ambientais. Restrições estas - que embora corretas, são nas mais das vezes exageradas - estão dando oportunidade impar aos burocratas de plantão, veja que o fenômeno é universal, para imporem seus autoritarismos inconsequentes e desvairados e com isso exporem-se às mídias locais para consecução dos seus projetos políticos pessoais. As restrições, à exemplo da peça de Beckett, entraram para o modismo e vieram para ficar, Wake Island, KH9, em breve entrará para o top ten dos most wanteds. A ombrear com Wake entrarão na lista das ambientalmente proibidas diversos países do DXCC por encaixarem-se à perfeição para ostentarem o respeitável rótulo de santuários ecológicos: South Sandwich, Glorioso, Bouvet e outros, a lista é muito longa para citá-los aqui. Uma vez declaradas santuários ecológicos da humanidade serão imperiosas as concessões de licenças expedidas pelo Green Peace, ONU e várias ONGs corruptas.
A espera pode ser mais curta ou mais longa, a depender dos países que faltam, isto é, se dependem de autorização dos ditadores políticos ou dos ditadores ecológicos, ambos totalitaristas e desprovidos do mais comezinho bom senso. Por sorte, os ditadores não são perpétuos, alguns têm mandatos(?) mais curtos ou mais longos, mas cedo ou tarde, serão substituídos ou mortos. A velha e iracunda senhora dizia: "se o país existe, cedo ou tarde, você vai trabalhar." Assim, para que a espera não seja dolorosa, ficaremos a trabalhar o WAZ em todas as bandas, IOTA, Challenge, modos digitais ou outras atividades que não deixem as antenas caírem por falta de manutenção ou então sentaremos à sombra de uma árvore e poremo-nos a esperar Godot.
73 DX de PY2YP - Cesar

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Pile up - Parte II

Ali pelo final da década de 70 começaram a surgir as grandes expedições, Clipperton, Okino Torishima, operações já destinadas a promover o novos diplomas CW e 5BDXCC. Para o diploma de CW passaram a ser válidos os QSOs a partir de 1975, os QSOs em CW anteriores a 1975 contavam apenas para o diploma misto. Os pile-ups aumentaram mais um pouco.
Nas décadas seguintes os equipamentos, agora já dominados pela tecnologia japonesa, melhoraram muito e trouxeram já incorporados, filtros, VFOs separados e toda a sorte de facilidades, sem falar é claro que não precisavam esquentar antes de sintonizar e outras mazelas dos tempos analógicos. Vieram as bandas WARC ou bandas novas como passaram a ser chamadas as bandas de 30, 17 e 12 metros e os pile-ups aumentaram mais um pouco.
No começo uma expedição de sucesso, de grande sucesso, trazia um log com 8 mil QSOs, pouco mais pouco menos. Uma expedição razoável, daquelas feitas por um único operador, se bem sucedida trazia 2 ou no máximo 3 mil QSOs.
A década de 90 trouxe uma grande novidade: o cluster. Alegria das alegrias, agora os surdos podiam descobrir as figurinhas nas bandas sem corujar, bastava uma olhada na tela do computador e lá estava o DX em cores vivas, apitos, sinos e fanfarras; um clique de mouse e pronto, rádio na frequência do DX pronto para chamar. E eles passaram a chamar ensandecidamente, muitas das vezes sem sequer ouvir o DX. Pândego. Corujar virou coisa do passado. Agora a competência do DXer não se mede mais pela capacidade de ouvir as bandas - estejam elas vivas ou mortas - não se escuta mais o silêncio nem a frequência vazia para sair na frente do pile-up, não é preciso mais frequentar rodadas de DX ou copiar boletins transmitidos em CW, como fazia W6RGG que transmitia todo domingo às 23:00 zulu em 14.040, em razoáveis 30 ppm, um excelente boletim e que colecionávamos para nos orientar durante a semana. Está tudo dominado, basta um acesso razoavelmente estável à internet e pronto está feito um DXer, devidamente nivelado por baixo é claro. Os pile-ups não apenas aumentaram mas passaram a ser instantâneos. Um DXer, ao acaso, escuta uma figurinha chamando geral, trabalha e spota (verbo novo), pronto, está formado o pile-up. Atrelado à evolução tecnológica dos softwares veio outra maravilha: o decodificador de CW. O ferramental para essa gente estava disponível: um rádio estável, um filtro de qualidade, um computador com um decodificador de CW e a transmissão via teclado. Pronto, os incapazes, os surdos, os destituídos passaram a "ouvir" CW, puderam até mesmo entrar num pile-up. Os mais ousados ainda batem: LID UP UP UP quando alguém por descuido transmite na frequencia do DX. E assim nasceram os cops. Até mesmo essa gente pôde sonhar, almejar e chegar ao Honnor Roll em telegrafia, wow! Quando as condições estão difíceis eles fazem papel ridículo; durante a recente operação de 7O6T um desses operadores foi contestado 4 vezes pelo FB operador de 7O, a frequencia estava batida, o sinal não era dos melhores e havia ruído, o software parou de decodificar e o incauto continuou chamando alucinadamente, o operador de 7O batia nas confortáveis 38 ppm: PY2YP PY2YP (o meu indicativo aqui é um mero exemplo para não expor o infeliz), ao cabo da quarta tentativa o operador de 7O6T bateu PY2YP DEAF UR NIL HI e continuou o baile. Mais de uma hora depois o infausto estava lá a chamar... É o reverso da medalha tecnológica. A internet trouxe ainda o sonhado log on line, trabalhou o DX e ficou com medo de tomar um not in log? Basta olhar o log on line e trabalhar novamente.
As últimas décadas trouxe a reboque do avanço tecnológico os maus operadores, mais presentes e ousados em fonia. A falta de educação e respeito atingiu níveis absolutamente escabrosos, principalmente na Europa onde o decantado savoir faire foi literalmente pelo ralo. Essa gente certamente egressa das bandas cidadãs espalha sua grosseria aos quatro cantos descarada e despudoradamente. Triste e lamentável.
Nos últimos anos as grandes expedições passaram a competir entre elas. Não basta ativar um país difícil - seja a dificuldade relativa ao acesso ou seja ela pela obtenção da licença - agora é preciso quebrar o recorde de QSOs. Para ajudar a quebrar os recordes trouxeram uma nova ferramenta chamada leaderboard que mostra, por país, quem são os DXers que mais trabalharam a expedição. Um DXer que trabalhou 15 metros fonia, 15 metros CW e 15 metros digital fez 3 band slots, se este mesmo operador trabalhar as demais bandas em CW, por exemplo, terá feito todas as possibilidades para qualquer diploma e poderá dedicar o seu tempo e esforços para atividades mais úteis. Mas não é assim, os ególatras não se contentam em esgotar as possibilidades para obtenção dos diplomas usuais - afinal, não existe contagem para banda x modo em qualquer diploma exceto para o diploma de maior ego do país - os ególatras precisam, tem uma necessidade quase física de exibirem seus gigantescos egos para a comunidade, tentam trabalhar a expedição em todas as bandas e todos os modos. Nessa fúria incontida deixam, nas mais das vezes, de trabalhar a expedição em bandas mais difíceis que exigem concentração e esforço. Por exemplo, o incauto se mata para trabalhar 20 metros RTTY, modalidade já trabalhada em 15 metros, a banda de 20, igualmente trabalhada em fonia e telegrafia, ele não se concentra em trabalhar o país em 40 metros, banda que ainda não conseguiu, onde precisa não só de horários mais específicos mas de muita concentração. Perdem o foco. Confundem eficiência com eficácia e o preço desse erro é perder o país numa ou noutra banda mais difícil. Mesmo perdendo as bandas difíceis ficam felizes com seus egos inflados, aliás, felicidade é o que conta, afinal isto tudo não passa de um hobby. Maravilhoso, diga-se.
73 DX de PY2YP - Cesar

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Pile up - Parte I

No começo dos tempos os DX só eram feitos essencialmente em telegrafia, embora os QSOs em fonia já fossem possíveis em amplitude modulada, o que se usava mesmo era o bom e confiável CW. Os países não eram contados, não havia DXCC e não havia tanta competição. A revista QST de Outubro de 1935 trouxe um artigo entitulado "How to Count Countries Worked. A New DX Scoring System" escrito por Clinton B. DeSoto, começava nesse instante a interminável corrida à glória de todas as glórias: atingir o pináculo, o topo. Aliás, a corrida propriamente dita só pôde começar em 15 de Novembro de 1945, por impedimento decorrente da 2a. Grande Guerra.
A década de 50 trouxe maravilhas para o DX, um excepcional ciclo solar e uma interminável sucessão de avanços tecnológicos, aprimoramento de antenas, transmissores mais estáveis, receptores mais sensíveis e o surgimento da maravilha dos foneiros: the single side band. Agora sim, até mesmo os foneiros podiam fazer DX. Este invento foi a lona do circo que começava a se armar.
Nesses primeiros anos as expedições eram modestas, levadas a cabo por um par de operadores, não raramente operações solo por algum aventureiro ou por alguém que iria trabalhar pelo exército britânico.em lugares exóticos como Kamaran, Sikkim ou Sumatra, afinal naqueles anos o sol não se punha no império britânico.
Se do lado dos expedicionários as coisas não eram fáceis, do lado gerador do pile-up as coisas, igualmente, eram difíceis. Não haviam informações, os boletins eram poucos e quando chegavam às mãos dos DXers, nas mais das vezes, as notícias já estavam superadas. Localizar um manager era uma tarefa dificílima, os mesmos ingleses que operavam em lugares estranhos não se davam ao trabalho de designar um manager, cobrar um QSL de Kamaran via rádio club inglês era um exercício de muita paciência e maior sorte. O Vicentinho, PY2ELV, levou anos para receber um QSL de AC3PT, o operador era rei de Sikkim, Palden Thondup Namgyal; ele foi preso depois da invasão chinesa e pagou o QSL da cadeia. Esse rei, Palden, era casado com uma americana e inspirou o filme "O rei e eu" estrelado por Yul Brynner.
Os pile-ups embora menos intensos tinham suas dificuldades próprias da tecnologia da época, a esmagadora maioria dos operadores tinham transceivers que ficaram bastante populares depois da chegada do SSB, e nem todos tinham VFO remoto. As linhas separadas, também eram difíceis de operar split, a mais famosa delas a cobiçadíssima linha Collins tinha uma característica terrível, para melhorar o desempenho e a linearidade do VFO cada banda tinha no máximo 200 kHz. Em 20 metros a banda americana em fonia começava em 14.200; o DX colocava seu transmissor em 14.195 e dizia: listen 5 kc and up. O pobre proprietário da linha Collins tinha que colocar o TX em 14b e o RX em 14a, resultado: o infeliz não conseguia ouvir o retorno do pile-up sem mudar o receptor de banda, correr o VFO para a banda 14b e voltar para a banda 14a a fim de ouvir o DX. Surgia dessa dificuldade a grande obra da engenharia: a linha Drake que conseguiu a mesma linearidade no VFO usando permeabilidade, o núcleo de ferrite corria por dentro da bobina, grande sacada, sem dividir a banda, ouvia de 14.000 a 14.500 kHz. Além disso era possível ouvir o retorno do DX pelo VFO do TX, isso mesmo, podia-se operar: transceiver pelo receptor, transceiver pelo transmissor e separado, recepção pelo RX e transmissão pelo TX. Sucesso total, 9 entre 10 membros do Honnor Roll eram possuidores das linhas Drake.
Depois vieram os transceivers com recepção transistorizada, as válvulas, poucas, somente aqui e ali e no tanque final, e os pile-ups foram aumentando.
Nos tempos das expedições pequenas, os pile-ups em geral eram na mesma frequência, os operadores se aquietavam quando o DX batia qualquer letra que não fosse do seu indicativo, não havia o DX Code of Conduct, não era preciso.
Nas décadas de 60 e 70 haviam grandes operadores que faziam suas expedições solo: SM0AGD, VK9NS, DJ6SI, DK7PE, SM7PKK e vários outros, levavam um transceiver, um manipulador, antenas de fio e muita dedicação.
73 DX de PY2YP - Cesar

terça-feira, 17 de julho de 2012

CQ test

Há alguns dias um PY disse a um amigo comum que havia trabalhado S79RR em 40 metros para um all time new one mas que estava em dúvida se poderia ter sido algum pirata. Esse amigo comum me retransmitiu sua dúvida ao que respondi: diga para o nosso amigo que ele está no log, eu escutei o QSO dele e o operador é mesmo o DJ9RR, a letra é dele e a maneira de operar é a mesma do QSO que fiz em 12 metros. Ouvir música ajuda em situações como essa.
Os conhecedores de música clássica são unânimes em dizer que Bach foi um dos maiores, senão o maior dos compositores em todos os tempos. Bach além de ter escrito uma obra imensa, mudou a música clássica e é considerado o divisor de águas da evolução musical, quanto a isto não resta a menor de todas as dúvidas. Dentro de suas inúmeras obras uma delas se destaca para estudos teóricos mais avançados: as variações Goldberg.
A variações, ou variação no singular, é uma técnica de alteração de forma onde o tema principal é alterado em várias repetições, pode-se alterar a harmonia, o ritmo, a melodia, o timbre ou propor um contra-ponto. Para quem não é muito familiarizado com este tipo de composição sugiro ouvir as variações Diabelli Opus 120 de Beethoven e as variações da sonata em lá maior K-331 de Mozart, ambas imperdíveis. O único perigo é pegar gosto pelo classicismo e perder a tolerância com essas porcarias que andam por aí.
Conta a lenda que a obra foi encomendada pelo conde Hermann Karl von Keyserling para seu cravista Johann Gottlieb Goldberg executá-la para que ele, o conde, rematado insone, pudesse adormecer pelas trinta repetições do tema, uma belíssima ária apresentada na introdução.
Glenn Gould o mais consagrado de todos os interpretes de Bach gravou duas edições das Variações Goldberg, a primeira em 1955 e a segunda em 1981, um ano antes do seu falecimento. Estas duas peças são obrigatórias no acervo de qualquer pessoa que goste de música de primeira linha. A audição das duas peças mostrará ao ouvinte pequenas e sutis diferenças nas interpretações; o mesmo pianista, separado por 26 anos de evolução, mostra o amadurecimento e o refinamento da sua técnica em situações que os ouvidos menos privilegiados jamais conseguirão notar, mas, para alguns telegrafistas são claras o suficiente para perguntar: será o mesmo interprete? Mais adiante essas mesmas sutilezas comprovarão: é o mesmo interprete, apenas mais refinado. E não restará mais qualquer dúvida, o ouvinte saberá a verdade, verdade essa oculta apenas aos moucos. Em telegrafia as minúsculas variações do timbre provocadas pela variação da potência chegam aos nossos ouvidos com uma clareza assustadora.
Os tolos e os muito tolos há anos tentam esconder suas traquinagens em contestes enviando o log como LP quando na verdade operam assim: CQ TEST DE PY2YP transmitindo com 100 watts; atendido por uma ou outra estação fazem alguns QSOs, ligam o linear e mandam: CQ TEST DE PY2YP CQ TEST DE PY2YP voltam várias estações, abaixam a potência para 100 watts e trabalham até esgotar a fila, voltam para 1 kW e chamam novamente, abaixam a potência e seguem assim durante os períodos de baixa que todo conteste tem. Durante os períodos de grande atividade as manobras são repetidas com 300 ou 200 watts mas quase nunca operam com os 100 watts regulamentares da categoria LP.
Esses operadores fazem essas manobras na doce ilusão de que no calor do conteste, no burburinho, na barafunda, ninguém perderá seu tempo ouvindo-os. Ledo engano. Todo DXer mesmo que não tenha muita paciência com conteste não deixa de corujar, afinal sempre pode aparecer uma ou outra figurinha, seja para um diploma mais específico, seja para uma zona que precise ou simplesmente pelo mero hábito de corujar. Qualquer um ao ler os resultados dos contestes se depara com algumas discrepâncias, resultados incoerentes com o fluxo solar e potência informada. Os velhos operadores sabem que os milagres, quando acontecem, são sempre acompanhados de falcatruas. É inexorável.
Conheço vários operadores de boa cepa que ao ouvi-los são capazes de dizer se a potência da manobra foi 5 ou 10 vezes em relação à potência declarada sem possibilidade de erro; embora a tessitura da telegrafia de uma mesma estação permaneça sempre a mesma, o timbre varia com a potência, isto é física, não há como escapar. O incremento da potência altera a forma da onda e a forma do envoltório da onda que, em última análise, definem o timbre. É óbvio que ninguém tem um vatímetro no ouvido, portanto, não é possível afirmar com que potência a estação está transmitindo, mas, pode-se afirmar com absoluta convicção que a estação aumentou a potência sem sequer olhar para o s-meter. Os tolos e os muito tolos bradam aos quatro ventos que são sérios, que nunca fazem isso, tentam convencer-nos. Inútil, perdem tempo, o deles e o nosso. Seriam mais bem sucedidos se ficassem calados, hirtos. Há até mesmo um operador que há anos, muitos anos é bom que se diga, pratica essas manobras, já foi alertado e admoestado várias vezes pelos seus pares, mas sua desfaçatez é intrínseca ao seu savoir vivre. Santé.
Post Scriptum: O galicismo ao final é deliberado.
73 DX de PY2YP - Cesar

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A origem do SOS

A revista QST de junho de 2007 traz um excelente texto, de autoria de John Dilks, K2TQN, sobre a origem e o significado do sinal de socorro SOS. Seu artigo baseia-se no livro "SOS to the Rescue" de Karl Baarslag, escrito em 1935. Este livro é uma raridade, encontrei-o num sebo no Canadá e valeu cada centavo.
No início de 1904, a Companhia Marconi, que equipava com seus rádios a esmagadora maioria dos navios mercantes adotou o código CQD - que é a contração de CQ, seek you, chamado geral, e a abreviatura da palavra distress, que significa: estado de perigo ou necessidade premente como está no dicionário Webster: 3: a state of danger or desperate need a "ship in distress". - para atender emergência iminente. O significado foi estendido pelo vulgo para Come Quick Danger, ou, venha rápido perigo. Mas, este último significado não tem qualquer origem histórica, é apenas fruto do imaginário popular.
Em 1906, aconteceu em Berlin a histórica reunião internacional sobre o uso do rádio. Os italianos adotavam para o sinal de socorro a abreviatura SSSDDD, ship in distress, já os alemães, sempre teimosamente do contra, adotavam SOE, cujo significado perdeu-se no tempo. Os alemães por serem os donos da casa impuseram o chamado SOE, mas, os ingleses e americanos, depois de muita discussão, conseguiram fazer valer a opinião de que a letra E ao final do código, um simples ponto, prejudicava a cópia sob os estáticos que sempre acompanham as tormentas. Não custa lembrar, que por essa época, todos usavam ondas longas, na errônea crença de que quanto mais comprida a onda, mais longe o sinal chegaria. A onda curta foi adotada para comunicações alguns anos depois. Assim, de comum acordo, e sob os olhares dos pobres alemães que sucumbiram à própria teimosia, nasceu o chamado de socorro SOS. O chamado deveria ser feito com três pontos, três traços e três pontos ininterruptos para não ser confundido com VTB, IJS ou SMB.
A reunião terminou sem a adoção oficial do novo código porque os políticos entraram na discussão e a decisão final foi postergada para 1908. Já naquela época os políticos trabalhavam diligentemente para o mal-estar geral da sociedade. Os ingleses, sempre saudosistas, demoraram muito tempo para adotar o novo código, continuavam a usar o CQD; assim, os oceanos continuaram a ouvir os dois códigos, SOS & CQD. Somente após o naufrágio do Titanic, que transmitiu CQD para pedir socorro, os ingleses abandonaram o CQD definitivamente.
Os significados impostos ao SOS, como Save Our Souls, Save Our Ship ou Send Out Succor, não têm qualquer valor histórico ou significado real, mais uma vez, fruto do imaginário popular ou dos ascendentes das futuras hordas oriundas das bandas cidadãs.
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 17 de junho de 2012

KH8SI Swains Island

País novo é sempre bem-vindo, mas precisava ser em dose dupla? Por que não se contentam apenas com Montenegro? Ficaria bem melhor 1 em 2006 e outro em 2007. Afinal fazer 2 países em um mesmo ano pode dar overdose de adrenalina. Mas, já que assim querem, assim será. Vamos ver como fazer para eliminar esta pendência, pensava eu na semana que antecedia a operação. A situação andava um tanto complicada aqui para o meu lado. O QTH de Indaiatuba, ainda inoperante não se mostrava como a melhor alternativa para trabalha-los, as yagis de 10 e 15 metros estão travadas em direção ao norte, o que poderia ser uma solução para um QSO pelo caminho longo em 15, já que 10 metros não haveria a menor possibilidade com a MUF do jeito que anda. A yagi de 20 metros que poderia resolver qualquer pile-up está inoperante, é preciso desce-la e trocar o balum que deve estar queimado, além do mais, está fixa para o sul da europa. Igualmente fixa na mesma direção está a Yagi de 2 elementos para 40 o que complica bastante uma vez que furar pile-up via LP não é das perspectivas mais animadoras. As quatro torres da antena de 80 metros estão servindo apenas como enfeite no quintal, a antena está com a caixa de fasamento em reparos e não daria tempo de montá-la para o final de semana. No QTH de São Paulo a situação estaria bem melhor se o país ficasse em qualquer outra região, justamente na direção do pacífico central tem um prédio ao lado do meu, e muito mais alto, o que atenua os meus sinais em mais ou menos 15 dB. As antenas aqui são de fio para as bandas baixas e uma valente KT34XA para 10, 15 e 20. Claro, não tenho antenas para as bandas WARC. Decisão difícil, as notícias apontavam para uma expedição de curta duração, mais ou menos 3 dias, com início na 6a feira ou no sábado. Nestas ocasiões, o ITSHFBC é de grande valia para ajudar na decisão; na 5a feira fiz algumas análises e descobri que não haveriam janelas para os pile-ups nas bandas baixas. Quando saiu VU4, meu último país, as previsões apontavam uma excelente janela por volta das 22:30 locais, sem propagação para a Europa e USA e sinais iguais aos nossos com o Japão. Refiz esta mesma análise para KH8/S que apontou uma janela entre 16:30 e 17:00 em 15 metros. Já na parte da manhã a briga em 40 metros seria sangrenta, haveria propagação para VK, ZL, JA e US-W, tudo junto além, é claro, dos nossos queridos irmãos LU e CE. Mesmo assim, as experiências passadas com o pacífico em 40 metros pela manhã aqui de São Paulo eram desanimadoras; a absorção do prédio e o baixo ganho da Vê-invertida me empurraram para Indaiatuba. Fui para lá na tarde da 6a feira e jurei solenemente consertar as antenas antes de dezembro. No final da tarde refiz os cálculos e preparei minha sempre presente lista de bandas e horários. Por volta das 22 tomei 3 copos de água e fui dormir.
Sábado, 29 de julho, 02:30 hora local.
A natureza cumpriu seu papel. Acordei e após as devidas providências hidráulicas me dirigi à sala de rádio. Dei uma olhada no quintal e fiquei alguns minutos olhando a chuva mansa. Maravilha, pensei, essa chuva vai me dar uns 10 dB adicionais devido ao ângulo de Brewster. Liguei o rádio e nada, um ou outro europeu em 40 e 80. A banda de 20 metros completamente fechada, é claro, sem antena a coisa complica, o L invertido de 160 não ajuda em 20. Fiquei ainda uns 10 minutos e voltei a dormir, com um pressentimento terrível: a propagação está pior do que eu esperava. Por volta das 06:00 voltei para o rádio e comecei a procurar por algum sinal de Swains, sem telefone ou VHF o jeito foi voltar aos velhos tempos e corujar, bem devagar e com muita atenção. Ajustei o VFO para 7.000,00 kHz e fui subindo lentamente. Nenhum sinal em CW, nenhum pile-up, nada de novo. Fazer um país novo em 40 metros fonia é um exercício de paciência, as rodadas e os DXers sulamericanos cobrem os sinais das expedições. Em 7.085 tem alguma coisa: W3, again please, you are five nine, hummm W3, deve estar ouvindo em 7.200, vamos ouvir lá em cima. É aqui que é a festa? O pile-up comia solto. O sinal do KH8SI até que estava bom, mas o que é isso? CQ 40 CQ 40 para a rodada da fraternidade, aqui é PY7%#* hoje comemorando 48 anos de rádio. Argh!!! A minha antena está de frente para o aniversariante e de costas para o DX, que horror! Depois de muita briga ouvi meu indicativo, mas não fiquei seguro porque ele me chamou mais de uma vez e não ouvi o OK. Alguns operadores só colocam o indicativo no log se ouvirem o QSL da reportagem. Algumas vezes recebemos o temível NIL, not in log, porque a reportagem foi coberta por alguém que chamou por cima. Mas... na falta de outro QSO vai esse mesmo. Coloquei no log e fiquei corujando para ver se ele voltaria para América do Sul. Os sinais se mantiveram estáveis até as 08:10 quando a camada D finalmente bloqueou a banda, a festa ficou para os japoneses. Fiz ainda algumas tentativas em 30 metros, mas o pile-up estava ensurdecedor. A antena de 160 não sai bem em 30 de modo que acabei desistindo.
Sábado, 29 de julho, 16:00 hora local.
Liguei o rádio e fui para os 15 metros ver como andava a propagação. Comecei a corujar em 21.000 e logo ouvi o terrível espanta-expedição: CQ TEST. Nada espanta mais expedição do que um conteste. Nenhum sinal de KH8 em 15, tentei 17 metros e ouvi um pile-up por lá, mas nem um sinal deles. Desanimador. Nem tentei os 20 porque não teria antena de qualquer modo.
Domingo, 30 de julho, 06:15 hora local.
Hoje eles estão em 7.080, sinais bons, acho que vai dar QSO. Liguei o Henry e fiquei na espreita, fiz alguns chamados mas sem sucesso. Now I'll change operator, please QRX for 5 minutes. Fiquei corujando a frequência vazia, felizmente não havia rodada nem splatter, animador, vamos ver se eu faço na frequência. Passados algo em torno de 8 minutos, escuto um sinal de sintonia. Chamo o KH8SI e escuto o operador: I'm sorry, I was tuning up with the 80 meters antenna, how is my signal? Respondo com meu indicativo e digo: You are quite strong here in South America. O miserável deu uma risadinha e disse: You have to call me on 7.090 e fez um longo CQ DX de KH8SI finalizando: Listening on seven zero niner zero QRZ? Respondi na hora, eu e todo o Japão, mais os VKs e ZLs, além é claro, dos sul-coreanos e companhia. Droga, conversei com a expedição mas não fui para o log. Não os ouvi em 30 e com isso encerrei o dia.
Segunda-feira, 31 de julho, 06:15 hora local.
Caberia ao velho e leal SB220 a difícil missão de furar o prédio do lado e colocar algum sinal em Swains. Aqui em São Paulo, pelo menos tenho acesso a internet. Não os achei em 40 metros, estavam em 20, mas sem propagação. Em 30 os sinais estavam miseravelmente pequenos, nada que valesse uma única chamada. Não há má sorte que dure para sempre, eis que o cluster avisa que eles estão em 3.795. Sintonizei rapidamente o linear e chamei na frequência, ele voltou para LU2NI. Outra chamada e ele avisa: Now listening 3790. Mudei a frequência do transmissor e chamei Piaui two Yankee Portugal. Ouço: the Yankee Portugal again please. Passo o indicativo e ouço: Hi Cesar, very nice to hear you, you are 59. Thank you Paul you're also five nine, 73, respondo ao velho amigo F6EXV. Finalmente estou no log.
Terça-feira, 01 de agosto, 06:00 hora local.
Eles aparecem em 7090 ouvindo em 7.200. Chamo várias vezes e consigo o QSO. Fonia está resolvido em 40 e 80 metros. Preciso de um QSO em CW. Não quero ficar devendo 2 países na modalidade: P5 e este agora. Espero que apareçam em 40 CW esta manhã. O tempo passa, eles estão em 20 mas sem propagação. Finalmente, por volta das 07:15 eu começo a ouvi-los em 10.106, mas muito fraco. O operador, igualmente fraco, não consegue copiar os indicativos de primeira, repete muito. Mal sinal, operador assim só consegue copiar sinais acima de S9. Chamo várias vezes e escuto 'pê' ??. repito uma vez só e escuto 'pê?2?'. Esse pê é o meu, declaro. Chamo 2 vezes para conferir o tempo de resposta e ouço: 'pê?2?'. Chamo novamente mas ele volta KH8SI QRZ UP? os sinais começam a cair e finalmente às 07:45 desligo tudo. O QSO em CW fica para a próxima operação. Well, como diz o nosso mestre W9KNI no seu livro The Complete DXer: Most of the time we all are loosers.
73 DX de PY2YP - Cesar

sábado, 2 de junho de 2012

CQ DX

O meu telefone celular está programado para tocar CQ DX CQ DX BK quando algum radioamador me liga. O volume é relativamente baixo, o suficiente para que eu possa ouvir com o telefone no bolso ou mesmo a alguns passos de distância.
Na noite de encerramento do WRTC em 2006, enquanto aguardávamos o início da solenidade, estávamos o PY2SP, PY1KN, PT7CB, PT7YV e mais algumas pessoas. O burburinho era relativamente alto, todo mundo ao redor estava conversando, em várias línguas, algo como um gigantesco pile-up de fonia.
Na mesa ao lado, um grupo de americanos, todos contesteiros, falando pelos cotovelos, sobre antenas e coisas do gênero, numa outra mesa, um grupo de finlandeses falando alto, num idioma que só eles entendem, algo muito próximo da cacofonia, nada que se possa copiar. Numa outra mesa mais à frente, um grupo de tuberculosos, todos operadores de banda baixa, dentre eles o famigerado SP2FAX e além de outros cobrões dos 160. Deviam estar a falar da top band, estavam longe, não se podia copiar nada do que falavam.
Abri o telefone e coloquei o chamado geral. Os americanos da mesa ao lado, nem perceberam, o ruído de fundo estava realmente mais intenso do que o toque do telefone. Mas deixei tocar um pouco mais CQ DX CQ DX BK CQ DX CQ DX BK.
Não demorou muito, numa das flutuações do burburinho, o pessoal da mesa mais longe, a dos tuberculosos, começou a se mexer nas cadeiras, como se algo os incomodassem. Mais uns momentos e o SP2FAX congelou o gole de chopp, parou no meio, fez um leve sinal com a outra mão e pousou o copo.
Na mesa ao lado, os contesteiros acostumados a copiar apenas sinais fortes não deram a mínima ao CQ, não copiavam mesmo.
Já os tuberculosos, começaram a varrer o ambiente com os olhos a procurar de onde vinha aquele sinalzinho no meio do ruído. Os ouvidos de todos eles se esticaram, como fazem os cães quando alguém encosta no portão das suas casas.
O SP2FAX logo descobriu a fonte do chamado geral e acenou com as mãos, como a dizer: 339 339 73 TU
73 DX de PY2YP - Cesar