terça-feira, 8 de maio de 2018

Jus esperneandi

O império romano deixou inúmeros legados às civilizações que o seguiram, sem a menor de todas as dúvidas o direito romano, adotado por grande parte dos países ocidentais, foi um dos maiores senão o maior de todos os seus legados.
Na Roma antiga quando os delinquentes eram julgados eram alocadas pessoas para ad, em lugar de; vocare, falar; esses faladores por procuração, virou profissão, passaram a viver disso, e ficaram conhecidos pela justaposição dos vocábulos: ad-vocare, tornaram-se advogados. Este o lado perverso do legado. Mas, voltando aos tempos idos, o delinquente, com todo o amplo direito de defesa, amparado por ad-vocare, era submetido ao mais severo dos tribunais da história. As leis eram estabelecidas por tribunos de grosso calibre, gente como Patérculo, Cícero, os irmãos Tibério e Caio Graco e outros. Os criminosos eram lançados aos leões, para gáudio da plebe, os crimes menores eram punidos com trabalho escravo ao passo que os delitos mais leves eram apenados com alguns anos na prisão. Impune o malfeitor não ficava, isso era certo.
Ao sair do julgamento e antes de ser levado ao cumprimento da pena, era dado ao condenado a oportunidade de que este pudesse bradar aos céus ou a quem tivesse paciência de ouvir, seus mais profundos impropérios contra seus julgadores. O apenado podia ainda escolher: ou os impropérios ou espojar-se numa grande caixa de areia onde ele podia espernear à vista de todos durante uma hora, bem medida numa grande ampulheta. Este último procedimento ficou conhecido como jus esperneandi e perdura até nossos dias. Os condenados, os apenados, os detratados quando não se conformam com o justo julgamento dos tribunais, ou da história, sempre esperneiam a mais não poder, até hoje.
A história é ainda mais severa do que os tribunais romanos, mais implacável. Não há advogado que consiga mudar nem seu rumo, nem os fatos e muito menos seu julgamento. É inexorável.
Um conhecido zumbi, um insepulto ascendente, meteu-se a DXer na banda dos cavalheiros, dos senhores dos ares. Incompetente e inculto, não teve estofo nem sabença para ali meter-se. Forjou QSOs, forjou confirmações, fez todos os tipos de mal fazimentos que se pode conceber. Descoberto, foi punido pelos fatos, pelos seus outrora pares e pela história. Não se conformou. E, inconformado, optou por ambas ações: bradou aos céus e aos léus; espojou-se na sua própria lama, na sua própria história e na honra que nunca teve. Histriônico, vomitou sua bílis peçonhenta contra a honra de pessoas ilibadas, íntegras e com história. Assacou contra expedições e operações. Não conseguia ver seus desafetos conseguirem QSOs legítimos. Ao sabe-los o insepulto tratava de desqualificar os feitos tentando torna-los ilegítimos, como os seus. Ao detratar apenas retratava sua própria cara feia. O insepulto atesta, em cada ato, a sua incapacidade, sua minudência explícita e inoportuna. Deveria ter dignidade e voltar para sua própria escuridão, mas não, insiste em subterfugir, tergiversar, desvia, esguelha, contorna e depois agride. Aos poucos os atacados começaram a perder suas paciências e passaram a invocar Cícero: Qvosque tandem abvtere, Insepultus, patientia nostra?
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 29 de abril de 2018

Operação Remota III

Serenadas as excitações finalmente o grande momento havia chegado. O operador massageou os pulsos, respirou fundo e mandou o primeiro CQ em 10.105: CQ DE P5RS CQ P5RS CQ DE P5RS 5UP. Nada, nem um pio, nem uma alma penada corujando 30 metros. A aposta era mesmo em 20 metros. O operador havia se decidido por 30 metros para enfrentar um pile-up inicial menor. Os egressos não sabem telegrafia o suficiente para frequentarem uma banda onde as operações são predominantes em telegrafia. Antes da praga FT8 se espalhar a banda era quase exclusiva de CW, uma operação em RTTY que aparecia vez por outra mas era só. O operador tomou novo fôlego e chamou geral uma vez mais. Nada. Zero. Será que desligaram a banda? Deu uma rápida olhada em 10.136 e a turba de egressos e ascendentes estava lá produzindo aquele hediondo e detestável ruído dos incultos. Voltou para 10.105 e mandou novamente CQ DE P5RS 5UP, girou o dial de recepção um pouco para cima, um pouco para baixo e escutou um UA9, voltou para ele e ouviu: P5RS DE UA9ZHS 5NN PSE CFM CALL. IS IT REAL? O operador respondeu: TNX FIRST QSO FRM REMOTE STATION PSE SPRED OUT THIS CALL. O russo respondeu: TNX NEW ONE ON CW. I WILL SURE DO. GL 73 TU. Um HL enfiou o sinal em tail end e logo mais um, mais outro e enfim começara o pile-up. As bandas altas entraram em operação após o amanhecer e o pile-up rugiu grosso e permaneceu tautofônico por todo o dia.
A estação de controle e operação estava dotada de algoritmos interessantes utilizados antes do QSO ser registrado no banco de dados. O operador ao digitar o indicativo da estação fazia com que o indicativo fosse para um banco de dados temporário. O indicativo tinha seu grid localizado num banco de dados para em seguida ter seu sinal real em dBW comparado com uma tabela de dBW para cada grid locator. Essa tabela havia sido gerada horas antes do início da operação através de um mecanismo de cálculo que fora concebido por um brasileiro e um finlandês utilizando os circuitos point-to-point do IONCAP para UNIX cedido pela marinha americana. Os sinais que mostrassem divergências entre 20 e 40% eram rotulados com SQSO ou suspicious QSO, os que mostrassem divergências acima dos 40% eram imediatamente rotulados de PQSO ou proxy QSO. Ao final do turno de operação os PQSO eram retirados do log temporário e enviados para ARRL para ulteriores providências e não eram registrados no log definitivo. Esse procedimento foi concebido para evitar casos como o QSO com 3Z9DX/P5 em 15 metros feito por um ascendente. À ocasião um veterano e respeitado DXer interpelou o contumaz argumentando que em 50 anos de rádio nunca soubera que houvesse propagação para aquela região naquele horário e ouviu a seguinte pérola do ascendente: “foi uma abertura esporádica”. Abertura esporádica em 15? O QSO não teria sido feito de Yuzhno? retorquiu o velho DXer com um sorriso sarcástico. O ascendente nada disse mas pensou: como ele ficou sabendo?
Ao cabo de alguns dias começaram as operações em 80 e 160 e a mesa de operações recebeu um novo aplicativo. Da mesma forma, ao trabalhar uma estação em 40, 80 ou 160 metros o operador digitava o indicativo que era direcionado para um banco de dados provisório para então ser comparado com uma tabela auxiliar que continha os horários de sunrise e sunset para cada grid locator. Os QSOs que tivessem sido feitos noventa minutos antes do sunset ou depois do Sunrise eram imediatamente rotulados como PQSO e recebiam o mesmo tratamento descrito; igualmente, os sinais que tivessem intensidade fora do esperado eram tratados como os QSOs de banda alta. Os grongueiros estavam decididamente em maus lençóis. Um búlgaro trabalhou P5RS em 160 metros logo no segundo dia de operação na banda e em seguida surgiu o indicativo de um PY, não deu outra, o aplicativo estampou na tela em letras vermelhas: DAYLIGHT PROXY QSO.
Mas nem tudo estava perdido na visão dos flibusteiros, um brasileiro com contatos pessoais no terceiro mundo conhecia um hacker no Azerbajan, um veteraníssimo DXer que vivia numa cadeira de rodas e era hacker nas horas vagas, competentíssimo, aduza-se. O hacker invadiu o drive SSD e, com todo o cuidado horário, introduziu todos os QSOs necessários em todas as bandas num setor do SSD dentro de um minúsculo arquivo escrito em código binário. Os dados seriam convertidos para ASCII e introduzidos no banco de dados quando fosse dado o comando: close dB. Mas a confusão estava potencialmente armada, seu comparsa de Yuzhno já havia trabalhado usando o indicativo do PY2 em 160 e 80, ambos QSOs durante o sunset do P5 e no meio do pile-up japonês. O sistema detectou a gronga e colocou o indicativo na lista negra inutilizando o trabalho do hacker. Mal sabia o hacker que todo o sistema estava protegido e seu pequeno e malcheiroso bacalhau já havia sido posto em quarentena para análise posterior.
Enquanto isso lá pelas bandas do sul um conhecido grongueiro sugava a bomba de chimarrão enquanto ruminava seus pensamentos traçando planos para conseguir confirmar P5 em 160...
73 DX de PY2YP - Cesar

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Expedição Remota II

Em Vladvostok o clima era de comemoração, os DXers ali reunidos, mal podiam se conter de bêbados que estavam de tanto comemorar. O que mais se via eram garrafas de Wodka trazidas pelos finlandeses, uma garrafa de whisky pela metade trazida por um escocês e muita cerveja aguada, presente da delegação americana. Dois DXers da velha guarda permaneciam sóbrios por determinação médica e prontos para dar início à dx-pedition. Caberia ao mais velho as honras da casa e chamar CQ.
O pessoal das mesas de controle estava com os olhos grudados nos monitores que indicavam temperaturas interna e externa, umidade interna do ar, funcionamento dos servo-controladores e o principal: as câmaras de vídeo dotadas de sensores infravermelhos para detecção de intrusos num raio de meia milha. No alto do mastro da antena havia uma câmara que podia enxergar ainda mais longe, cerca de 3 milhas sob nevoeiro médio e uma milha sob nevoeiro intenso. Três grandes relógios com um pé de diâmetro mostravam os horários: o central marcava a hora do local de operação, o da esquerda a hora local do centro de operações e controle e o da direita hora universal. Eram precisamente 05:30 em Hanyopyong quando o russo, líder do centro de operações, deu ordem aos veteranos DXers que iniciassem a operação.
A comunidade dxzista ao redor do mundo estava com a recepção de seus rádios ajustadas em 14.025 que era de longe a frequência de maior aposta para início das operações. O indicativo mantido em absoluto segredo finalmente seria usado para o primeiro CQ e fora motivo de infindáveis discussões, P5RS remetia à operação do infausto Romeo Stepanenko quando da expedição P5RS7 que segundo foi apurado operou da Rússia Oriental, ali mesmo, perto de Vladvostok, ao demais, RS remetia igualmente às suas iniciais. Por outro lado, argumentavam os defensores, RS era uma homenagem à primeira remote station expedition. Optou-se finalmente após imensas discussões por P5RS. Os egressos não entendiam o motivo de tanta exultação mas comentavam entre eles usando o dialeto próprio das suas origens: “vou fechar um QSO com essa ativação”. Os ascendentes estavam excitadíssimos com a possibilidade de trabalharem um ATNO. Haviam descoberto há pouco o significado de all time new one e usavam a expressão na forma de abreviatura exibindo grande sabença e intimidade com os infindáveis mistérios. Ao demais, para os ascendentes, ATNO é o que não falta, há muito por fazer ainda.
Igualmente, discutiu-se muito qual a banda e modalidade para início. Da forma como a estação foi concebida só haveria uma estação no ar operando uma única banda e uma só modalidade por vez. Como então distribuir o plano de bandas e modos? Para os egressos 20 metros era a consecução de seus sonhos, trabalhar um país do calibre de P5 era a glória dos egressos. Para os ascendentes, a modalidade de início tanto fazia, já operavam CW, já haviam se distanciado dos egressos e tentavam emparelhar-se com os OT, assim, o que valia mesmo era P5 no log e poder sonhar com o top, sonho e tortura dos ascendentes. A modalidade de início também fora motivo de muita discussão, alguns dos patrocinadores exigiam que o início e a maior parte da operação se desse em fonia. Falar todo mundo fala, argumentavam. Por outro lado, os veteranos retorquiam: hoje em dia qualquer pândego chega ao honor roll em telegrafia com ajuda de decodificadores ou mesmo com uma telegrafia básica, só precisam identificar seus indicativos o que pode ser conseguido pelo método pavloviano. Até mesmo cérebros obtusos conseguem decodificar seus próprios indicativos, escarneciam.
Outra discussão sangrenta onde alguns puristas quase saíram no tapa com os modernistas foi a decisão da modalidade digital. Estes últimos argumentavam que poderiam automatizar todo o processo utilizando a modalidade da moda: FT8. O software coloca o transmissor no ar e emite 5 sinais simultâneos em modo pentaplex, estes 5 sinais são conhecidos como foxes; ao passar para recepção, varre o espectro decodificando até 50 sinais simultaneamente; um algoritmo decide para qual indicativo voltar bloqueando sinais acima de 13 dB para não estimular o uso de potência nas pontas do pile-up, as estações desta ponta são denominadas hounds. O processo estabelece peso para os indicativos, baseado no sistema de cotas: os mais velhos terão peso maior, os países com menos densidade demográfica terão, igualmente, tratamento preferencial; os países mais pobres, terão pesos ainda maiores porque seus habitantes não podem arcar com os custos exorbitantes de monobandas ou de antenas dinâmicas. O processo pode ser automatizado a tal ponto que os operadores do centro operacional poderão descansar enquanto a estação remota cuida de tudo trabalhando 5 estações por vez. Na ponta do pile-up, argumentavam os modernistas, os operadores também não precisarão intervir para ter P5 no log, basta deixar que o software cuide de tudo. É o final dos tempos destemperavam os mais velhos repetindo a mesma frase utilizada no final da década de 1950 quando surgiram os transceptores que usavam o moderníssimo SSB. Fora do CW não há rádio, lamentavam.
continua...
73 DX de PY2YP - Cesar

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Expedição Remota I

Uma assustadora e silenciosa mancha cinza sobrevoou os céus de Hanyopyong a 8.000 pés, num voo calmo, sem ruído, apenas varrido pelo vento que soprava NW. Alguns minutos depois a enorme mancha começou a descer na vertical e pousou suavemente nas coordenadas programadas: 42º31’48”N 130º30’36”E e 2.880 pés de altitude entregando sua gigantesca encomenda. A grossa camada de neve amorteceu o baque final e imediatamente os sofisticados mecanismos do container entraram em ação. O cinza do gigantesco paraquedas confundia-se com a neve e não podia ser visto dos postos de observação da fronteira russa onde os vigias à essa hora da madrugada mal conseguiam ficar acordados. O café ralo com gosto de palha de milho era considerado um luxo servido apenas ao pessoal do plantão noturno ou a quem se dispusesse corromper o oficial encarregado da intendência.
As câmeras dotadas de visão noturna se abriram, esquadrilharam todos os 360 graus do horizonte, certificando os operadores baseados em Vladivostok que poderiam continuar com os comandos. Do fundo do container abriram-se duas tiras com 10 polegadas de largura e quase todo o comprimento do container; em seguida foi acionado um comando aos braços hidráulicos e um par de esteiras localizados no fundo do container abaixou-se forçando-o para cima, apenas algumas polegadas, para em seguida acionar o motor elétrico. O container sacudiu ligeiramente e todo o conjunto dirigiu-se a um ponto um pouco mais a leste e mais acima. No ponto desejado as esteiras foram recolhidas permitindo que o container estacionasse definitivamente. Uma vez estacionado as diagonais do lado menor do container se alongaram e cravaram fundo na neve até encontrar um solo resistente e passaram a funcionar como patolas dando estabilidade ao container, agora devidamente estacionado e pronto para suportar as tensões a que seria submetido. Uma escotilha localizada no topo do container com 6 polegadas de diâmetro foi aberta permitindo a passagem do tubo feito de liga aço-titânio revestido de uma fina camada de cobre como se fosse um gigantesco periscópio. O tubo telescópico foi reduzindo a seção até ficar com apenas meia polegada na extremidade final. O comprimento total atingia inacreditáveis 66 pés de extensão total. Ao meio da primeira seção do tubo, estavam encravados em baixo relevo 16 tubos de 9 pés de comprimento, afixados através de dobradiças servo comandadas. Assim que o tubo grande atingiu sua posição final os 16 tubos telescópicos foram levantados formando um ângulo de 90 graus em relação ao tubo mestre e suas seções foram alongados até atingirem 57 pés, formando um plano terra elevado. A antena dinâmica estava pronta para ser sintonizada na banda desejada, irradiar CQ e começar a operar efetivamente.
A aeronave que carregara o container havia decolado horas antes da base aérea de Vladivostok e era o ponto alto de um projeto começado anos antes levado a cabo por radioamadores russos, finlandeses, alemães e americanos, tudo com ajuda financeira das maiores associações de DX. Por outro lado, corria um boato que a CIA havia bancado grande parte do custo para absorção tecnológica para fins menos corriqueiros. O container carregava o que havia de mais moderno em mecânica fina, eletrônica e antenas dinâmicas, tudo servo-controlado. Um sistema composto de micro antenas e roteadores conseguia acesso a um satélite que disponibilizava uma banda passante de 5 Gb/s, suficiente para o tráfego dos comandos, imagens e tudo o mais que fosse preciso.
O container não obedecia exatamente aos padrões normais de forma e dimensões, tinha superfícies ligeiramente onduladas, revestimento não reflexivo aos radares e pintura foto variável: durante a noite era cinza escuro e durante o dia cinza muito claro de forma que, visualmente, pudesse sempre estar mesclado à paisagem nevada.
O local fora cuidadosamente escolhido, próximo o suficiente da fronteira russa de forma que as forças de fronteira, que raramente olham para dentro do país, não pudessem notar o monstrengo a algumas milhas das suas costas e longe o bastante das atenções das autoridades de Pyongyang. O ponto exato deveria ser um local com 360 graus livres e inteiramente desprovido de obstáculos; alto o suficiente para ter neve durante o período de operação além de oferecer o máximo de dificuldades para que uma patrulha pudesse investigar o sítio.
Com tudo acertado finalmente a tão esperada hora de começar a operação havia chegado. Os egressos e os ascendentes ao redor do mundo estavam excitadíssimos, alguns deles haviam feitos polpudas doações na vã ilusão de que mesmo não conseguindo um QSO legítimo pudessem constar do log.
Continua...
73 DX de PY2YP - Cesar

sábado, 14 de outubro de 2017

Ars per ars

Aprendemos nas aulas de ciências do curso primário que existem três estados da matéria: sólido, líquido e gasoso, assim considerados porque nos transmitem sensações ao toque, ao contato ou ao cheiro. Há, porém, algo que nos transmite sensações e mesmo emoções sem estar contido nos três estados ditos, o quarto estado: o estado da arte.
De fato, no estrito sentido de transmissões sensoriais, o estado da arte é tão poderoso quanto qualquer outro estado da matéria. E, como arte, pode ser entendida qualquer manifestação que nos faça sentir emoções, ficarmos felizes ou indignados. A manifestação artística dos peladões ajoelhados em roda enfiando seus dedos nas pubendas dos que estão às suas frentes; ou o peladão que se deixa tocar pelos infantes, é arte pura, no estrito sentido que nos tiram do sério, nos deixam indignados, furibundos, inflamados e prontos para aplicar uns bons cascudos nessa gente que pratica arte rasteira, baixa e imunda. Ainda assim, no sentido teórico continua sendo arte eis que o objetivo de transmitir emoções foi alcançado. Lembremo-nos que um número qualquer tem duas raízes, uma positiva e outra negativa, esta última, igualmente importante. Afinal, a impedância, nossa velha conhecida, leva em conta os valores das raízes negativas no seu cálculo ao contrário da resistência que só leva em conta os números do campo real.
Na Grécia antiga a arte era levada a sério no seu ultésimo grau, o pessoal se reunia nos anfiteatros para ouvir versos, ouvir música ou assistir a peças teatrais. A poesia não era como esta de hoje em dia cujo único objetivo é engrandecer o traseiro feminino. Os gregos batiam os pés alternadamente, uma batida curta e outra longa, eram os chamados pés-de-verso ou iambos em grego. Sim, o precursor dos manipuladores iâmbicos. Cada linha do verso tinha que, além de fazer a rima, obedecer a uma rigorosa métrica; por exemplo: um verso sáfico deveria ter 10 sílabas em cada linha e, além disso, ter sílabas tônicas nas quartas, oitavas e décimas posições, tudo acompanhado das batidas dos pés dos espectadores. Não bastasse isso, o verso tinha que contar alguma proeza ou uma cantada nalguma grega bonita. Os gregos ainda eram bons em escultura, arquitetura e diversas outras manifestações artísticas. Decididamente eles eram o estado da arte.
As manifestações artísticas podem ainda aparecer em qualquer atividade humana, basta que a façamos bem feito, bem feito a ponto de que seu resultado nos desperte emoções. Experimente fazer arte com o CW. Sim, ao tempo que comecei no rádio, os telegrafistas tinham sua própria letra, sua própria maneira de transmitir e eram conhecidos ou reconhecidos nas bandas apenas pelas suas peculiaridades de manipulação, quem já transmitiu com um daqueles batedores sabe do que estou falando. Essa arte continua viva durante o Straight Key Night quando todo mundo sai de batedor, nada de eletrônicos ou computadores para transmitir. É a arte pela arte, ars per ars. Nesta linha, até mesmo a participação em pile-up nos permite dizer que pode haver arte no seu mais estrito senso. Quando participamos do pile-up corretamente podemos atingir o ponto mais alto das emoções auditivas: o eargasm. Este acontece quando ouvimos o nosso indicativo seguido de 599 TU. Creio que todos nós já alcançamos esse clímax mais de uma vez.
Na contramão disso tudo existem aqueles que por incúria, incompetência ou mera imbecilidade, conseguem por meios escusos e trapaceiros terem seus indicativos nos logs. Por serem incapazes de atingir emoções por meios próprios, imploram a amigos que trabalhem os DX para eles, criando sua própria arte, a arte que lhes trazem como emoções os mais baixos sentimentos contidos nos porões da alma: inveja, rancor, ira, ódio e frustração. Comportam-se como o peladão que não conseguindo ser eros tornou-se tânatos.
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 9 de julho de 2017

Arengas e lenga-lengas

Muito antes de nós,
Muito antes dos nossos avós
Já lecionava aos faraós,
Prosperina de Queiroz.

Era assim, em 1960, que encarávamos a fera. Dona Prosperina, vetusta e empertigada senhora, creio que andava lá pelos seus 70 e poucos anos - naquela época as pessoas podiam trabalhar até quando quisessem ou tivessem disposição - lecionava desenho para a turma do segundo ano ginasial. A velha senhora, antes do início da aula, percorria todas as fileiras examinando as mãos dos alunos, todos nós ficávamos com as palmas de ambas as mãos estendidas e ao menor indício de sujeira éramos colocados para fora da classe, severamente admoestados e penalizados em 0,5 ponto na próxima prova. Não pode sujar o papel, dizia ela, o aluno tem que estar limpo para desenhar e para qualquer outra coisa que faça. Limpeza nas mãos e no caráter, falava enquanto brandia uma régua de madeira, pesada, com um dos lados com uma camada metálica para dar mais rigidez; nunca se soube de um único aluno que a desafiasse. A empertigada velhota poderia facilmente desancar o ousado. Eram outros tempos, tempos em que as pessoas tinham vergonha, caráter, honra e orgulho do que faziam. Se alguém ousasse mentir para dona Prosperina estaria condenado a passar mais um ano com ela, o infeliz seria reprovado e na segunda reprovação o fantasma da jubilação se tornaria realidade. Ser jubilado era o mesmo que ser expulso do ginásio para nunca mais voltar. Ah, sim a escola era pública, chamada de ginásio do estado, ou simplesmente estadão, assim mesmo, como o jornal. Quem conseguisse completar o ginásio e o curso científico no estadão, sem uma única reprovação, podia se considerar um vencedor.
Os tempos mudaram, ficaram modernos, o ensino público foi alvo de sucessivos e bem sucedidos ataques por parte das autoridades, as novas teorias pedagógicas, os discípulos do grande enganador francês, monsieur Piaget, atingiram o alvo com assustadora precisão: desmontaram e alquebraram algumas gerações que vagam pela sociedade sem norte, sem parâmetros e sem vergonha. O ensino atual já não molda caráter, não norteia comportamentos e, pior, não pune os desalinhados. E isso vale para todas as atividades: comerciais, empresariais, políticas, cotidianas e, como não podia deixar de ser, para o nosso inofensivo DX.
Os operadores sem formação moral e escolar suficientes, sem norte comportamental, os desnorteados saem por aí fabricando QSLs, forjando QSOs impossíveis e por não terem formação educacional básica, confundem horários, latitudes e longitudes além de cometerem toda sorte de trapalhadas nas suas falcatruas. A pândega desfaçatez poderia ser rotulada de cômica, não fosse tão sem-graça. Os esquerdopatas dizem que esse tipo de gente é resultado do capitalismo opressor, da sociedade perversa e por aí vai. Até onde vai não se sabe. O fato, triste, diga-se, é que essa gente está a aumentar. Sabe-se hoje de vários e vários operadores que assim agem. Quando pegos na mentira insistem nas suas fantasiosas versões. Claro, não lhes resta outra alternativa senão negar o óbvio a mais não poder; não conseguem convencer quem quer que seja, todavia.
O desconhecimento é tamanho, que um dos larápios, ao tentar justificar um QSO com um país da zona 29 disse tê-lo ouvido porque tinha uma beverage apontada para a cidade do Cabo. O nosso planeta, para seu infortúnio, é esférico; não é preciso ser versado em ortodromia para saber que a beverage deveria estar apontada bem mais para o sul. Outro pândego jura ter falado em 80 metros com uma estação da zona 28 duas horas após o nascer do sol, ao ser confrontado reduziu o horário em três horas para ficar na zona escura daqui; esqueceu-se, ou não sabia, que ao fazer isso o DX ficou duas horas antes do pôr do sol; nas palavras de um conhecido operador de 160m: a zona escura é como cobertor curto, ao cobrir a cabeça os pés ficam de fora... Ah sim, só para constar, à hora dita o DX estava em 12 metros; até onde se sabe não há harmônico gerado em 80 que alcance 12 metros! Um outro, este sim, um falsário, meteu-se a gráfico e imprimiu um QSL mas ao escrever o nome do operador errou na grafia; ao ser consultado, o DX apenas disse: "eu sei escrever meu nome!" As histórias são inúmeras, algumas engraçadas são contadas e recontadas nos encontros e feiras onde os operadores caem em gargalhadas homéricas expondo ao ridículo os farsantes, tudo regado a muita cerveja.
Ao tempo em que eu verificava os QSLs para o WAZ, um desses gaiatos veio aqui em casa com o pacote completo, iria pedir o terrível 5BWAZ, diploma dos mais complicados e que exige muita dedicação. A verificação foi normal até chegar nas zonas difíceis em 80m. Notei que o operador começou a ficar um tanto quanto tenso e pedi que ele me acompanhasse até a estação, abri o DX-Atlas para simular o dia e hora de um QSO da zona 24. Não deu outra, o QSO estava com uma hora de sol na estação do DX. Ele não teve dúvida, sacou um envelope da pasta, e mostrou outro QSL mas desta vez o horário era após o nascer do sol daqui; sacou um terceiro QSL e novamente horário impossível. Ao final da verificação rejeitei as zonas 24, 29, 30 e 40. Disse a ele: encaminhe os 200 cartões para o manager nos USA porque eu não vou assinar. Ah, vou avisar o manager da CQ para verificar os horários das zonas que rejeitei, completei. Ele demorou quase 10 anos para pedir o diploma diretamente nos USA. Esse tipo de comportamento me fez desistir das atividades de verificação dos diplomas da ARRL e da revista CQ, simplesmente me cansei de tanta pilantragem.
O que leva alguém a se comportar dessa maneira? Ao pedir para que outrem faça o QSO por procuração está assinando a declaração de completa incompetência, de falta de capacidade técnica, de falta capacidade operacional e de falta de vergonha. Para quê? Para depois de constar no log jactar-se da sua própria e infeliz incapacidade? Uma coisa é fazer esse tipo de bobagem em bandas altas onde ninguém dá a menor importância, seja o QSO com um P5 ou um 4W em 10 ou 12 metros, mas agir assim nas bandas baixas é o mesmo que dar um tiro no pé. Os operadores sérios das bandas baixas se comunicam durante as expedições, trocam informações de ruídos, de horários mais prováveis e comentam que trabalharam estações próximas às áreas de interesse. É nessas horas que os tolos são desmascarados, sempre foi assim. Foi assim com SU, 9N, 4W e várias outras operações difíceis. Mas, há algo novo no ar: as novas tecnologias.
Eu não estive presente, mas me foi dito que na última feira de Dayton foi falado que o LOTW e SDR estão servindo de ferramentas para auditoria em vários diplomas do DXCC, principalmente nos diplomas de 80 e 160 metros. Já há vários casos consumados e exemplos horríveis como o de uma estação que forjou QSOs com 150 (cento e cinquenta) países em 160 metros. Pelo que foi falado a cassação começará em breve. Segundo consta há alguns brasileiros envolvidos. Se isso realmente acontecer a ARRL estará saldando uma dívida antiga para com os operadores sérios e resgatando a credibilidade do DXCC. Aguardemos.
73 DX de PY2YP - Cesar

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Antena solar

Há algumas semanas recebi um e-mail de um amigo indonésio de longa data, meu primeiro QSO com ele foi em 1978 e vez por outra trocamos alguns QSOs em 20 metros CW. Ele esteve certa feita em São Paulo e tomamos uns tragos juntos discutindo a propagação entre Indonésia e São Paulo.
Beni, é esse seu nome, sabe do meu grande interesse pelos estudos de propagação principalmente em 80 metros que é de longe minha banda preferida. Quando comecei a trabalhar o 5BWAZ em 1997 ele me ajudou muito apontando as frequências menos ruidosas para que eu pudesse trabalhar as zonas 24, 28 e 29, que são algumas das zonas complicadas em 80. Beni foi o primeiro QSO com a 4 square na zona 28, eu havia escrito para ele contando dos meus estudos em montar uma antena grande e ele ficou vivamente interessado no resultado. Quando marcamos o sked para esse QSO discutimos bastante para marcar o horário. Para complicar um pouco, o QTH do Beni é na extremidade leste da Indonésia e o path para lá passa em cima do polo sul magnético, é basicamente a mesma propagação do Timor. Como sabemos, de meados de agosto a meados de maio a propagação é exclusivamente ao nosso entardecer, por outro lado, de maio a agosto, a propagação pode, em casos excepcionais ocorrer ao nascer do sol, nem muito antes nem pouco depois, tem que ser no máximo 15 minutos antes ou após o nascer do sol. Não considerar estas janelas apenas demonstra uma profunda ignorância na banda e ignorância não ajuda no QSO, tentar forjá-los fora dos horários é cair no ridículo. Nenhum operador decente de banda baixa ignora isso. Não adianta vir com arenga, lenga-lenga ou histórias da carochinha. Não fala e pronto.
No e-mail que o Beni me enviou recentemente ele disse ter ouvido um PY2 muito forte, estranhamente forte e resolveu me contar. Disse ele que estava corujando uma operação em Dili quando ouviu o PY2. Beni achou estranho ouvir PY àquela hora da noite, por volta das 20:40 local e resolveu anotar e ver o que estava acontecendo. No e-mail Beni me perguntou se há alguma antena nova, alguma teoria surgindo porque não seria possível, em condições normais, algo assim. Você sabe, disse ele, não ouso desconfiar de alguém daqui trabalhando um país para um PY pois somos ambos povos muito sérios com nível de trapaça e corrupção ligeiramente abaixo dos países escandinavos. Jamais pensaria em acusar nem um YB e muito menos um PY de estarem usando meios escusos para trapacear um QSO. Por favor, investigue as novas teorias de construção de antenas e me conte. Beni ainda perguntou se alguém teria montado algum protótipo bem sucedido da minha antena a gás. (V. Experimentações Teóricas de abril de 2013)
Como não poderia negar um pedido do velho amigo, tive que pesquisar bastante e descobri uma montagem de um búlgaro, um conhecido e honesto operador de banda baixa onde ele estava testando um protótipo de uma antena tocada a energia solar. Segundo consegui descobrir a antena tem a forma de um V invertido mas não usa fio, usa uma chapa de uma liga denominada Be-Ni-Cu, 22% de berilo, 12% de níquel e 66% de cobre. A chapa tem espessura de 0,5mm e largura de 42mm o que a torna flexível para poder ser enrolada à exemplo das utilizadas pelas antenas dinâmicas. O carretel é usado para sintonizar a antena no segmento desejado, isto é, para a porção de CW ou de SSB. A largura da fita é adequada tanto para receber a insolação quanto para tornar a antena o mais broadband possível. O ângulo de inclinação das pernas do V invertido deve ser tal que possibilite tanto a insolação máxima quanto manter a impedância o mais próximo possível de 50 ohms. Assim, para latitudes menores, mais próximas do equador, a antena tem menor eficiência dado a menor insolação - sol mais a pino e, portanto, com ângulo de incidência mais agudo - mas, por outro lado, as temperaturas maiores acabam por compensar a perda do índice de iluminamento. Nas latitudes mais altas o fenômeno é inverso. Por outro lado, a antena tem mostrado o seu melhor rendimento nas latitudes tropicais, isto é, +/- 5º da linha do trópico.
Logo após o nascer do sol, a antena começa a receber iluminação direta do sol e começa a aquecer, por volta de 2 horas e meia após o sunrise ocorre o fenômeno conhecido como ergoblaster quando toda a energia recebida pela antena é propagada com o incremento da temperatura da antena alcançando um fator de 20 dB; o baixo ângulo de irradiação faz com que o sinal passe por baixo da camada D, a esta hora já formada, e tenha seu primeiro skip a milhares de quilômetros de distância. Vale lembrar que após o sinal sofrer seu primeiro skip, encontrará a zona de plasma equatorial e seguirá via ducto para em seguida abandonar a camada e descer para a estação receptora à exemplo das conhecidas propagações F2F2, que como sabemos é completamente diferente da propagação 2F2.
Mandei a explicação para o amigo indonésio acompanhado de um croquis, foto de um protótipo que consegui arranjar por vias transversas e do indicativo da estação que a montou, tudo acompanhado de uma nota dizendo: mistery solved. Beni, respondeu apenas: indeed it is...
73 DX de PY2YP - Cesar


domingo, 21 de fevereiro de 2016

A reforma

Era uma daquelas tardes modorrentas, tudo meio parado, as bandas ainda reverberando da ressaca de duas grandes expedições, agora, passado o frenesi, a calma voltava a imperar. Papay Yankee dormitava na rede, olhos cerrados e ouvidos em stand by. Ele andara ausente, havia se mudado para um longo período de estudos transcendentais no Sikkim, diziam uns e emendavam: esteve lá para recuperar um QSL de um QSO com AC3PT, Palden Thondup, dado como perdido; outros diziam que ele simplesmente havia se desligado de tudo e abandonado o rádio. Pura falta de informação. Por onde ele andara ninguém sabia.
Mas de fato mesmo, ou melhor, não se sabe como a parede do shack agora ostentava o QSL do rei do Sikkim, de alguma forma o velho havia finalmente conseguido recuperar um dos últimos QSLs perdidos. Claro, ele tinha Sikkim confirmado em 20 metros, o rei havia pago o cartão da prisão mandando um guarda, seu admirador, colocá-lo no correio. Este novo cartão era em 40 metros, novo e raríssimo na banda. Sua Majestade Palden Thondup Namgyal, ou simplesmente Palden, como era conhecido no rádio, uma ocasião contratou uma professora americana para ensinar alguns dos seus inúmeros filhos e ele acabou casando-se com ela. Quando foi deposto o governo americano exigiu que ele pudesse deixar o país com seus filhos, suas esposas, concubinas e os demais restantes do bando e ir morar nos USA. Esse rei inspirou um filme de muito sucesso na década de 60 estrelado pelo careca Yul Brynner e Deborah Kerr: O rei e eu.
Um turista do Rio de Janeiro em viagem àquelas bandas jura ter visto Papah Yankee caminhando descalso numa viela de Lhasa no Tibet com um olhar perdido no horizonte, em estado quase catatônico. Um radioamador francês, integrante do Medecins sans Frontiers, diz tê-lo visto distribuindo, igualmente descalso, sanduíches de mortadela às vítimas do terremoto em Kathmandu. Esses avistamentos foram seriamente discutidos nos jardins internos da feira de Friedrichshafen, claro regado a muita cerveja. Certeza mesmo ninguém tinha, eram apenas visões e aparições esporádicas. Alguns teóricos diziam que ele estava mesmo morando nas silentes montanhas do Himalaia devido à composição mineralógica dos maciços. Andava descalso, conjeturavam, para descarregar a imensa quantidade de RF adquirida em décadas de exposição. Por onde o velho andou permanece, ainda hoje, um dos mais insondáveis mistérios.
Nesse período de ausência do velho o sítio de Maracutaia da Serra havia passado por reformas profundas, as antenas foram todas desmontadas, lavadas, engraxadas, lubrificadas, alinhadas e remontadas; o shack teve sua instalação elétrica verificada, recebeu aterramento novo, novas estantes, uma bancada para pequenos reparos; os rádios foram todos alinhados, válvulas novas para os lineares, um keyer novo, presente de um belga; a biblioteca toda reorganizada recebeu um novo equipamento de som, os discos e livros foram todos catalogados; e o principal: a varanda recebeu telas protetoras contra mosquitos, pintura nova e mobiliário novo, mais leve, pronto para receber os amigos e alguns ascendentes eventuais.
Nos bons tempos o sítio, além dos frequentadores habituais, recebia muito bem alguns dos locais, alguns ascendentes e raramente algum dos egressos, estes não eram benvindos no sítio. Tolerar os ascendentes, dizia Papah Yankee, já é um exercício de paciência, mas os egressos ninguém aguenta. Estes últimos, queixava-se ele, querem mudar a forma de grafar os indicativos, flexionam QSLs e lineares no feminino, um verdadeior horror. Agora, depois do longo período de ausência, desta vez iluminado pelas luces transcendentais tibetianas e nepalesas talvez o velho se dispusesse receber um ou outro egresso com melhor humor, mas isso era uma aposta de alto risco.
Na outra extremidade da varanda Zé QRO conversava em voz baixa com Jota QRP sobre umas aparições fantasmagóricas de um búlgaro em 160m...
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 25 de janeiro de 2015

Operações Remotas

As novas regras do DXCC permitem que se possa operar uma estação remota, desde que dentro do mesmo país, e ainda assim validar os QSOs para os diplomas da ARRL. Esta alteração promoveu grande altercação entre os participantes dos diplomas DXCC. Alguns mais radicais se propuseram a queimar seus QSLs, diplomas, equipamentos, antenas, rasgar os pulsos e sangrar até a morte. Outros, mais comedidos, preferiram continuar trabalhando seus DX mas nunca mais submetê-los à aceitação da Liga. Uma grande parte ainda não se manifestou, seja por não terem sido avisados das mudanças ou porque não acharam que fossem significativas o bastante para merecer seus tempos.
A verdade é que a ARRL nada mais fez do que se adaptar às novas tecnologias que permitem operações remotas a baixo custo. Nada mais do que isso, uma questão meramente econômica. Há muitos anos, não me lembro exatamente se dez ou quinze anos, a revista QST publicou um interessantíssimo artigo que previa o fim das expedições tripuladas. Um grupo de DXers se reuniria, montaria um equipamento que seria lançado por avião em algum lugar remoto, exótico, algo como Bouvet, Peter First ou outro lugar qualquer que fosse interessante do ponto de vista de raridade para o DXCC. Esse equipamento, totalmente operável por controles remotos, cairia de para-quedas num ponto previamente escolhido, claro, com bons paths para as costas leste e oeste dos USA, abriria seu invólucro, abriria os coletores de energia eólica e solar, carregaria suas baterias, esticaria uma vertical até a frequência desejada e faria os contatos, decodificando automaticamente RTTY, CW e até mesmo os fonéticos internacionais; o log seria enviado por satélite para os operadores da estação remota que os validaria e enviaria os cartões QSL. Toda a tecnologia para isso, lembrava o artigo, estava dominada e ao alcance de todos, era apenas uma questão de custo. Seria esse o fim das expedições? Ou seria um novo começo?
Um ponto interessante do DX, seja ele para alcançar o WAZ, DXCC, ou qualquer outro papelucho, é que o participante estabelece suas armas e seus objetivos e, dentro dessas premissas, ele participa. As regras de um ou outro diploma nada mais são do obstáculos legais ou morais para que haja algum espírito de competição e emprestar algum interesse ao papelucho.
Pergunto para os interessados qual a diferença entre ouvir um DX pelo telefone de um amigo ou por um SDR? Qual a diferença entre operar uma estação remota ou a estação de algum amigo? As regras dizem que as estações devem respeitar os limites legais de potência de cada país. Por acaso alguém já mediu a potência irradiada das big-guns? Conheço várias que operam muito acima do limite legal. Você também as conhece? Essa limitação não é atendida e os donos das estações se orgulham de suas potências e, mais, sou capaz de apostar que a esmagadora maioria das pessoas gostaria e muito de poder transmitir com 5 ou 10 kW. As regras dizem que os DXs devem ser feitos pelo mesmo operador, mas, e se alguém vem operar sua estação e faz um país novo em alguma banda com seu indicativo, você vai ignorá-lo ou vai contabilizá-lo? Talvez você diga que é válido porque foi feito da sua estação e trará de volta a velha discussão que o indicativo deve pertencer ao operador e não a estação. Discussão tão longa quanto velha. É claro que alguns limites devem ser observados e alguns comportamentos são absolutamente condenáveis, como o de dois operadores que aparecem com QSOs em 160 metros com o sol a pino e os põem nos seus logs; não só isso mas ainda exibem orgulhosamente os QSLs. Idiotas? Penso que não, apenas tiveram seus sensos de exibicionismo acima dos sensos éticos, uma questão meramente aritmética.
Quando comecei a caçar países há mais de quarenta anos eu nem suspeitava da existência do DXCC, fiquei sabendo disso uns três anos depois quando um amigo me perguntou se eu já tinha 100 países confirmados, contei os cartões e respondi que tinha 134 e ele então me disse para mandá-los para o endereço da ARRL que eu ganharia um diploma. Mandei e vários meses depois recebi um canudo com o diploma dentro, enfiei o papelucho numa pasta de onde nunca mais saiu. Nunca dei importância ao papel em si, mas, muito, ao objetivo que eu estabeleci: falar com todos os países do mundo. Terminei a empreitada há 10 anos e não tenho mais objetivo definido, continuo a fazer DX porque gosto e continuarei fazendo enquanto o gosto durar; os resultados são e continuarão sendo mera consequência da minha permanência no ar. O que penso de operação remota? Nada. A discussão é inócua.
73 DX de PY2YP - Cesar

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Um janeiro quente

O mês de janeiro começou morno, sem graça, nada de novo nas bandas, apenas a expectativa de que ao seu final a movimentação deveria esquentar com FT5 e A5 ambas programadas e muito aguardadas. Para mim a expectativa de dois países novos em 10 metros me deixou com os dedos duros, apesar do A5 estar previsto apenas em fonia, mas ainda assim novo na banda. Nos 10 metros a possibilidade de fazer um único país no ano já é, em si, remota, fazer dois é um sonho louco, perdê-los, um pesadelo. Eu preciso de 6 países em 10 metros e apenas 4 em 15 metros; Amsterdam eu preciso nas duas bandas. É este o peso desta expedição: duas bandas difíceis e em uma delas, 10 metros, praticamente impossível.
Alguns dias antes da expedição preparei um mapa de MUF para o Sérgio, PP5JR, levar para sua operação em Bhutan. Ao elaborar a previsão aproveitei para estudar cuidadosamente as possibilidades em 10 metros, única banda que me interessava. O resultado foi claro: por volta das 12:00 UTC com possibilidades dobradas, via LP e SP, mas ambas com as mesmas intensidades de sinal: próximas de zero, ligeiramente acima do meu nível de ruído. Apesar disso fiquei otimista, o Sérgio é experiente e iria ouvir os brasileiros com atenção.
Já para Amsterdam as previsões eram desanimadoras, em 15 metros sinais meramente audíveis e em 10 metros simplesmente não havia MUF; possibilidades remotas de propagação marginal com sinais raquíticos quando muito. Ausência total de propagação em long path. Este era o quadro.
Meu primeiro QSO com Amsterdam foi com FB8ZM em agosto de 1978 em 20 metros CW. Em setembro de 1988 eu falei com uma estação em fonia, bem cedo aqui e pela hora do almoço dele e ouvi: I'm sorry but I must leave for working. I'll be back tomorrow. Não me deu a reportagem, não me colocou no log e tampouco voltou no dia seguinte ou em qualquer outro, sumira. Só fui trabalhar Amsterdam em fonia em 1998 na expedição de FT5ZH, fiz em 80, 40 e 20 metros todos em fonia. No domingo, 26 de janeiro, fui para Indaiatuba logo cedo e devidamente municiado com todas as ferramentas indispensáveis para trabalhar as tão esperadas expedições: mapas de MUF, SDBW, NDBW, um FT-1000MP Mark V de backup e o gato.
Domingo, 26 de janeiro. Depois de desmontar uma TV de 32" para retirar a placa T-Con que pifou, ajeitei a estação, verifiquei as antenas, amplificadores, limpei o manipulador e arrumei toda a bagunça; os dois transceivers estavam devidamente revisados e alinhados, ambos com as recepções impecáveis e com filtros prontos e ajustados para enfrentar qualquer pile-up. Nessa mesma noite trabalhei FT5ZM em 40m CW apenas para colocar meu indicativo no arquivo de master call deles e facilitar o super check partial, mas tanto a banda quanto o modo não me interessavam em nada.
Segunda-feira, 27 de janeiro. Acordei com o gato andando nas minhas costas. Treinei o gato para me acordar quando o sol está a precisamente -6º de elevação, bem no gray-line náutico. É um despertador eficiente, não faz barulho e não precisa dar corda. Levantei, peguei a vasilha de ração do gato e fui para o shack. O gato gosta de ficar na janela e assiste o gray-line com grande atenção, fica vendo a mudança de cores da vegetação, os pássaros e toda a movimentação do amanhecer, é sem dúvida sua hora favorita do dia; e minha também porque o gray-line sempre traz boas oportunidades. Sintonizei o receptor em 15 metros e comecei o dia. Sinal fraco em 15 metros CW e pile-up monstruoso, vociferante, tonitruante. Impossível. Chamar aqui, pensei, será pura perda de tempo e desgaste das válvulas. Mudei para 10 metros. Sem sinal mas pile-up mais bravo do que em 15. Nada a ser feito. Ainda assim passei boa parte da manhã estudando o comportamento dos operadores e ali pelas 11 horas desliguei tudo.
Terça-feira, 28 de janeiro. Enfadonha e assustadora repetição. Nas bandas altas a mesma situação, sinais copiáveis, muito fracos e pile-up desencorajadores. Os europeus comandando o espetáculo, por volta do meio-dia desliguei tudo e fui cuidar da vida.
Quarta-feira, 29 de Janeiro. Recebo um telefonema informando que o FT5ZM está forte em 17 metros fonia. O gato e eu, ambos meio sonolentos fomos para o shack, o gato irritado por ter perdido hora e eu animado, liguei o linear, o computador e o rádio, nessa ordem e procurei pelo sinal do FT5. Lá estava ele com um excelente S6 e sem interferência lateral, ruído ou qualquer outra coisa que pudesse atrapalhar. Linear aquecido e sintonizado, tudo pronto mas vejo que falta o principal: o microfone. O microfone não fica na mesa para não atrapalhar e nessas horas sempre me pergunto por onde anda o maldito microfone. Agora sim, estou pronto para começar a chamar, ele está atendendo exatamente 10 acima e não oscila muito, está voltando ali mesmo. Lá pela quinta ou sexta chamada o operador com forte sotaque russo me atende e chama only South America durante vários segundos mas como não há qualquer outra estação deste canto do mundo ele volta para os europeus e vez por outra chama only SA. Ao cair da noite escuto forte em 14.185 e trabalho sem grandes dificuldades.
A noite, ao final da novela fui para o rádio e os escuto forte em 40m SSB. Um QSO dos mais desnecessários, já tenho confirmado na banda e no modo, mas chamo umas duas vezes e vou para o log às 22:04 local. Nada demais mas pelo menos alivia a tensão. O amanhecer deles é exatamente nesse horário, portanto mais alguns minutos e eles terão que encerrar em 40 e 80 metros. Fui para 10.115, preparei o linear e fiquei esperando, ouvindo o silêncio, vez por outra alguém se atrevia a usar a frequência mas era enxotado. Esperei por exatos 35 minutos para, finalmente, ouvir CQ CQ de FT5ZM 3 UP. Chamei sem mais ninguém atrapalhando e na segunda chamada ele me atende. Agora sim, as coisas estão pegando rumo, tenho duas bandas novas com 5 QSOs, mas, nas bandas altas a situação estava a requerer imediatas e eficazes providências. Fui dormir mais animado.
Quinta-feira, 30 de Janeiro. Nada. Zilt. Passei a manhã toda ouvindo em 15 e 10 metros, mas sem chance. Vez por outra, teimosamente, batia meu indicativo mas sem a menor possibilidade. A continuar assim terei que ficar aqui duas semanas e isso é absolutamente impossível, tenho compromissos em SP e não posso ficar a disposição de Amsterdam. Ligo para um amigo e combinamos enviar alguns e-mails para os pilotos, eu fiquei encarregado de mandar para o Stan, KH6CG que conheço há muitos anos e explico a situação: as antenas quando viradas para a Ásia, USA ou Europa, a América do Sul fica sempre de lado com perda entre 25 e 30 dB, lembrando que 30 dB equivale a multiplicar a potência de transmissão por mil, ou o sinal que nos chega tem potência mil vezes menor do que na Europa, por exemplo. Quando os operadores viram para a costa leste dos USA, por onde poderíamos aproveitar uma parcela do lóbulo de irradiação, a propagação já se foi e não temos mais possibilidade. A continuar assim, explico, eles terminarão a expedição sem um único contato com a nossa região em 15, 12 e 10 metros. Para ilustrar o problema mando acompanhando o e-mail um mapa azimutal centrado em Amsterdam. Providências tomadas só nos resta aguardar.
Sexta-feira, 31. Desta vez o gato não perdeu hora e fomos para o shack antes das 06:00. Nada nas bandas altas, apenas aquele ruído de ovo frito tão característico de banda fechada. Por volta das 06:20 15 metros CW começou a acordar e os sinais melhoraram rapidamente; comecei a chamar com todos os watts disponíveis e, finalmente, às 06:37 o país #346 em 15m foi para o log. O dia prometia, sem a menor das dúvidas eles viraram a antena. Depois que trabalhei fiquei algum tempo escutando e o sinal chegou a honestos e reais S6. Muito bom. Fui tomar café e quando voltei o S-meter em 10 metros já dava sinais de vida. A pancadaria estava grande mas às 08:21, igualmente, o país #346 em 10 metros foi para o log com um lindo e sonoro 5NN. Os pilotos foram eficientes, a expedição virou a antena e deu tudo certo.
Ao cair da tarde escutei A52JR em 40 metros. Excelente, o Sérgio está no ar e amanhã tenho que estar cedo para aproveitar a propagação da manhã em 10 metros.
Sábado, 01 de fevereiro. O dia começa cedo, às 07:09 consegui trabalhar o FT5ZM em 17 metros CW com muita facilidade. Fui para os 12 metros e por volta das 08:45 horas escuto o mesmo operador de sotaque russo atendendo exatamente 10 acima, como no dia em que fiz em 17m. O sinal bom deu a entender que as antenas ainda estavam sendo viradas para cá de tempo em tempo. Chamei algumas vezes e fui para o log exatamente às 08:59. Agora sim, tenho Amsterdam em todas as bandas e me falta apenas um QSO em RTTY para colocar o país ao mesmo nível da Bolívia. Mas ainda há outros peixes para serem fritos portanto vamos ao trabalho.
Apareceu um spot informando que o Sérgio estava em 15 metros e fui lá ouvir. Sinal minúsculo pelo SP, virei para o caminho longo e chegou bem. Falei com ele e pedi para ir para 10 metros. Ele disse que em meia hora estaria em 28.430, enquanto esperava voltei para 12 metros e escutei o operador russo informar que iria para 15 metros SSB. Fui junto e aproveitei o pile-up reduzido e o trabalhei sem dificuldade às 09:31. Voltei para os 10 metros e estacionei em 28.430 para esperar pelo Sérgio, antena pelo caminho curto, que era minha aposta inicial; às 09:48 escuto A52JR chamando geral e falo com ele sem dificuldade, sinais pequenos mas audíveis. País #347 em 10 metros no log.
Domingo, 02 de fevereiro. A vantagem de operar RTTY em FSK está em aproveitar todos os filtros do rádio, cair exatamente na frequência de transmissão do spot além do aumento na legibilidade de sinais fracos, eu diria que é um equipamento indispensável para quem quer fazer o DXCC em RTTY. E lá estava o FT5ZM em 21.080 escutando acima. Mas quanto acima? Com a antena apontada para Amsterdam os sinais da Europa não eram decodificados e não conseguia escutar o contemplado. Um horror. Por sorte o PY2NQ trabalhou em 21.084 e me deu uma indicação para onde estacionar meu TX, depois de umas dez ou quinze chamadas ele me atende com toda clareza. Agora sim, posso arrumar a tralha e voltar para São Paulo. Amsterdam está definitivamente fora de qualquer preocupação.
Expedições como essa, operadas de locais cuja direção de antenas nos colocam em nítida desvantagem com as zonas de maior interesse, exigem muito preparo, dedicação, disponibilidade de tempo e uma boa dose de sorte. Apenas 3 estações sul-americanas conseguiram trabalhar FT5ZM de 10 a 80m, todas do Brazil. Infelizmente em 160 metros não houve condições e nenhuma estação brasileira trabalhou.
73 DX de PY2YP - Cesar

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Garimpo

Há 40 anos quando comecei com o DX ninguém se preocupava em trabalhar os países em diferentes bandas, nem mesmo em diferentes modos, um QSO era mais do que suficiente para contar o país no DXCC. É claro que quando podíamos trabalhávamos o mesmo país pelo menos duas vezes para ter certeza de que não receberíamos o QSL de volta com o temido NIL, not in log, ou como alguns managers escreviam em latim: nihil; este segundo QSO era conhecido como insurance QSO. Nas mais das vezes trabalhávamos primeiro em CW onde os pile-ups eram mais organizados, e acho que ainda são, e depois tentávamos em fonia. E isso era tudo.
O dia primeiro de janeiro de 1975 foi um marco para o DXCC, começava nesse dia o DXCC em CW, isto é, os QSOs em CW só valeriam para o diploma se feitos após o dia primeiro de janeiro desse ano, os QSOs feitos em CW antes dessa data contavam apenas para o diploma DXCC misto. Isto nos obrigou a trabalhar e confirmar novamente os países que tínhamos naquela modalidade. Alguns DXers trabalhavam as bandas para o diploma 5 bandas DXCC, criado em 1968, onde era necessário confirmar 100 países em cada uma das bandas: 10, 15, 20, 40 e 80 metros sendo possível utilizar todos os contatos feitos após 15 de novembro de 1945. Uma vez conseguido o diploma eles paravam por aí eis que o diploma 5BDXCC não era endossável, isto é, de nada adiantaria ter 250 países em cada banda. As bandas WARC: 12, 17 e 30 metros ainda não estavam liberadas para os radioamadores.
Os logs em papel não ajudavam muito nas estatísticas e não sabíamos exatamente o que tínhamos, exceto é claro, o número de países nas modalidades CW e fonia. RTTY nem pensar porque não haviam expedições para a modalidade por razões um tanto quanto óbvias, era praticamente impossível levar uma máquina de telex de 200 quilos adaptada para RTTY, os praticantes da modalidade eram poucos e taxados de malucos e não se importavam muito com o DXCC.
Com o surgimento dos computadores pessoais e os softwares de log o quadro mudou completamente, ao pressionar de umas poucas teclas lá estava o log: limpo, organizado, com todas as informações possíveis e estatísticas confiáveis. O problema passou a ser digitar os logs velhos para espelhar a situação real do DXer. É claro que facilidade demais acaba por prejudicar e é comum encontrar logs eletrônicos cheios de lixo: QSOs sem identificação de país, modalidade errada, além das horríveis duplicidades, enfim, ter um log eletrônico não significa ter um log correto. Do lado da ARRL os computadores permitiram melhor controle dos diplomas e permitiram a criação de diplomas DXCC por banda, os modos digitais se tornaram populares e criaram o diploma Challenge, este sim, um desafio para todos, afinal alcançar a marca de 3.000 países bandas é uma tarefa para poucos, muito poucos. Eu tinha sérias desconfianças que meus logs velhos poderiam esconder alguns países bandas não cobrados à época.
Munido de toda a paciência que consegui juntar, ali por setembro de 2011, comecei a digitar os logs. Imaginei que para digitar os quase 10 mil contatos em papel levaria em torno de 50 dias corridos se tivesse a disciplina de digitar apenas 200 por dia, o que não é muito e assim fiz: reservei alguns minutos do dia para digitar a meta diária e antes do final do ano lá estava o log inteiro no computador. Os resultados foram surpreendentes, havia no log 8 países bandas que eu nem desconfiava que algum dia os houvesse trabalhados:
Comoros - D68KN 10 metros;
Navassa - KP2A/KP1 10 metros;
North Cook - ZK1MB 10 metros;
Prince Edward and Marion - ZS8MI 10 metros;
Serrana Bank - HK0AA 10 metros;
Bouvet - 3Y5X 15 metros;
Canal Zone - KZ5OJ 15 metros.
Iran/Iraq Neutral Zone - 8Z4A 15 metros;
Para confirmar ZS8MI bastou enviar o log para o LOTW e lá veio a confirmação; ZK1MB não pagou mas logo em seguida trabalhei E51MAN que pagou via LOTW ao final da expedição; KP2A/KP1 foi fácil, mandei um e-mail para o operador, ele me indicou o manager e pronto; o manager de 3Y5X estava trabalhando fora do seu país, demorou um pouco mas pagou; D68KN deu um pouco mais de trabalho mas descobri um dos operadores na Austrália e recebi o cartão.
Infelizmente não consegui confirmar HK0AA, 8Z4A e KZ5OJ. O primeiro, Serrana Bank, teve seu log queimado pela viúva do manager; a Mary Ann Cryder, WA3HUP, dos melhores managers de todos os tempos, adoeceu e não pôde confirmar a Zona Neutra. Já para a Zona do Canal, KZ5, pelos meus registros eu tinha mais um QSOs em 15 metros SSB e marcado como QSL RCVD: KZ5EJ, talvez perdido nas caixas de QSLs dos USA. Se eu conseguisse achar esse QSL minha situação em 15 metros melhoraria em muito, iria para 346 podendo alcançar 350 quando conseguir trabalhar os 4 que faltam.
Reuni novamente toda a paciência do mundo e comecei a procurar o maldito cartão da Zona do Canal. A única forma de acha-lo seria procurar QSL por QSL, um por um de forma a não ficar um único cartão de fora. Já que iria manusear milhares de QSLs, decidi digita-los todos: marcar os QSOs como confirmado; incluir no log os QSLs que havia recebido em concursos da época dos logs em papel; separar as ilhas para algum dia pedir o IOTA, ou simplesmente corrigir os dados dos QSOs que estivessem errados. Foram 14.992 QSLs digitados; os QSOs novos no log foram devidamente enviados para o LOTW. Depois disso, limpei o log retirando os QSOs duplicados, corrigi dados errados cruzando com o log em papel. Para finalizar copiei para outro arquivo de log alguns QSOs que nunca foram validados para o DXCC: XZ9A, P5RS7, 9C0X, ZC3HGN dentre outros; no log original esses QSOs foram marcados com RST igual a zero, para que o DX4WIN os considerasse inválidos, neste caso o software mantém o QSO no banco de dados mas este não é considerado nas estatísticas; se algum dia isso vier a ser alterado como foi o caso de 7O1A basta digitar 59 ou 599 no campo RST e tudo volta ao normal. Igualmente foram transferidos para o outro log os QSOs com estações que algum dia tiveram a pretensão de se tornarem países: Transkei, Siskei, Bophutatswana, Snake Island, Guemes Island e outros mais. Enfim, o log ficou pronto, com as ilhas marcadas e separadas, sem contatos duplicados, tudo limpo e organizado. Ficou um log de dar água na boca de qualquer DXer que um dia teve seus logs em papel. Agora eu sei que tenho QSLs suficientes e diferentes para 3 diplomas 5BWAZ; sei quantos QSOs eu tenho por países cabeludos e em quais bandas, quais confirmados, quantas ilhas confirmadas etc. Tudo ajustado e perfeito mas o QSL da Zona do Canal não apareceu.
Digitar os logs e os QSLs foi uma volta ao passado, ao tempo em que eu podia ficar acordado até tarde ou levantar durante a madrugada para procurar pelo pile-up de alguma expedição, ou mesmo lembrar das longas conversas com americanos e europeus para saber as novidades ou possibilidades de uma operação em Burma, Albânia, China e outros países impossíveis. Foi também uma dolorosa lembrança ver a letra nos QSLs de vários amigos que já se foram. Junto com alguns QSLs haviam cartas ou bilhetes de operadores agradecendo o bate-papo ou trazendo notícias; num desses bilhetes havia um escrito por DJ7ZG agradecendo pela ajuda com um QSO com o Anibal, operador da Estação Científica Corbeta Uruguay, mas esta é outra história para um outro texto.
73 DX de PY2YP - Cesar

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Parâmetros para etiquetas

Os usuários do DX4WIN certamente já se depararam com um pequeno problema na impressão de etiquetas que vêm em folhas. Eu pelo menos tive esse problema durante anos até que decidi estudar o problema com mais atenção e finalmente resolvê-lo. O problema a que me refiro acontece nas últimas linhas de etiquetas quando o indicativo começa a ficar muito próximo da borda superior até que, em alguns casos, fica com a parte superior das letras invadindo a etiqueta da fila acima. Se alguém já teve esse problema aqui está a solução.
Inicialmente é preciso entender o significado de cada um dos parâmetros utilizados pelo DX4WIN: FILE | DATABASES | LABELS. Eu utilizo etiquetas da Pimaco modelo 6180 com 30 etiquetas por folha. Os parâmetros citados neste exemplo são os que uso para impressão nesse modelo mas podem facilmente ser adaptados para quaisquer outros. Os valores a seguir são os valores default da etiqueta 5160, similar à 6180:
Number across: 3 é o número de colunas de etiquetas;
Number down: 10 é o número de linhas de etiquetas;
Label width: 66,67 mm é a largura da etiqueta;
Label height: 25,40 mm é a altura da etiqueta;
Horizontal pitch (distância entre dois objetos): 69,85 mm é a distância entre as colunas;
Vertical pitch: 25,40 mm é a distância entre as linhas;
Spacing left: 4,78 mm é a margem esquerda ou a distância entre a borda da etiqueta e borda do papel;
Spacing top: 12,70 mm é a margem superior ou a distância entre a borda superior da etiqueta e borda do papel;
Horizontal Shift: 0,00 mm é distância entre o texto e a borda da etiqueta ou o valor usado para deslocar o texto a partir da borda esquerda da etiqueta. Este valor altera apenas o texto dentro da etiqueta e não a localização da etiqueta no papel, é como se fosse a margem dentro da etiqueta;
Vertical Shift: 0,00 mm é distância entre o texto e a borda superior da etiqueta;
Com estes valores a impressão não fica boa, como eu disse no início, o texto começa a "subir" até "comer" um pedaço do indicativo. Aparentemente há um problema no passo da impressão, isto é, a impressão na 2a linha de etiquetas desloca um pouco, na 3a linha desloca mais um pouco e assim por diante. Inicialmente tentei modificando os valores das margens, tanto esquerda quanto superior. Deu certo para o deslocamento horizontal, mas no vertical o problema permanecia. Em seguida alterei os valores do deslocamento (shift) e o resultado foi exatamente o mesmo. Por que o problema estava apenas no deslocamento vertical? Seria algo relacionado com o driver de impressão?
O valor do pitch, tanto horizontal quanto vertical, compreende a distância efetiva entre duas etiquetas alternadas, isto é, a distância entre a etiqueta da primeira coluna e a da terceira coluna, ou, entre a primeira e terceira linha, incluindo nessa conta o corpo da etiqueta da segunda linha ou coluna. Uma análise mais cuidadosa dos valores default apontaram algo estranho: comparando a largura da etiqueta com o pitch verifiquei que o pitch era ligeiramente maior do que a largura da etiqueta, enquanto a distância vertical (pitch) era exatamente igual à altura da etiqueta. Hummm, o fabricante de etiquetas estava afirmando que a distância vertical entre as etiquetas era igual a zero. Peguei uma lupa e examinei cuidadosamente uma folha nova e vi que havia uma pequena diferença, pequena, mas não era zero. Identificado o problema bastaria aumentar o pitch vertical, mas quanto? Como o deslocamento ocorria 9 vezes, número de espaços entre as 10 linhas, essa pequena diferença era multiplicada por 9. Como o deslocamento final era de pouco mais de 2 milímetros bastaria dividir o deslocamento final por 9 e acrescentar ao valor default do pitch. Pronto, problema resolvido.
Abaixo os valores que funcionaram bem para mim:
Number across: 3;
Number down: 10;
Label width: 66,67 mm;
Label height: 25,40 mm;
Horizontal pitch: 69,85 mm;
Vertical pitch: 25,64 mm;
Spacing left: 4,78 mm;
Spacing top: 12,70 mm;
Horizontal Shift: 3,00 mm;
Vertical Shift: 1,00 mm;
Para que coubessem 3 QSOs em cada etiqueta adotei a fonte Consolas - que lembra um pouco as máquinas elétricas da IBM e tem o zero cortado - corpo 9 para o indicativo de chamada da estação e corpo 8 para os dados do QSO.
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 26 de maio de 2013

Hipérbato

A civilização grega, ao tempo das cidades-estado, desenvolveu-se em níveis nunca antes experimentado pelos povos ocidentais, o progresso era tanto que as artes tinham lugar garantido na lista de preocupações e no gosto do povo. Os anfiteatros eram muito bem construídos com o palco no lugar geométrico dos ouvidos da audiência de forma que o artista não precisava elevar a voz para ser ouvido, não havia amplificadores nem microfones, nem precisava, esses ambientes abertos eram uma perfeição da engenharia acústica. Lá no palco declamavam-se poesias com as mais variadas métricas. Os ouvintes batiam os pés, esquerdo e direito, alternadamente para marcar a entonação das sílabas, essas batidas eram denominadas iambós, batidas de pé de verso: uma curta e outra longa, batidas iambicas. Os gregos fizeram escola e até hoje os poetas, os de boa estirpe, usam os ensinamentos para suas métricas: sáfico, heróico, alexandrino e outros tantos. Cada linha da poesia tem que ter um número determinado de sílabas e a rima, uma coincidência de fonemas, em geral a partir da última vogal tônica de cada verso, é o que dá vida e graça ao texto. Dentre os mais variados tipos de poesia, a mais difícil, a de mais rigorismo é a parnasiana.
Um poeta parnasiano de peso - não um desses repentistas que ficam falando bobagens rimadas - não abre mão do rigorismo formal. Para conseguir a rima dentro da métrica inflexível ele acaba por fazer concessões gramaticais, ou, como querem os puristas, criar formas gramaticais para conseguirem seus intentos. Por exemplo: “Não é que o meu o teu sangue / Sangue de maior primor.”. Alexandre Herculano inverteu o texto para atender o rigorismo exigido pela sua poesia e ao inverter o texto dificultou o entendimento. Tivesse escrito: “O teu sangue não é de maior primor que o meu.” o entendimento do texto seria mais fácil mas o rigorismo poético não seria atendido e isso os parnasianos não admitem, não fazem concessões. A figura gramatical para a inversão do texto chama-se hipérbato que basicamente é o mesmo que anástrofe, nome que se dá para inversões curtas.
Um DXer de peso, sério, jamais abre mão dos seus princípios éticos, dos rigorismos formais do DX. Não pode conceber ou admitir colocar no seu log um contato que não tenha sido feito por ele mesmo. A gronga é para aquela gente advinda de outras freqüências, daquelas que compartilham com seus iguais: entregadores de pizza, taxistas, caminhoneiros e outros tantos. Enquanto esse rebotalho humano fique restrito às frequências altas, lamentamos mas passamos ao largo, não nos misturamos e vamos levando a vida. O diabo é quando um desses mal feitores radiofônicos, isso mesmo, esses foneiros, se metem a operar DX em bandas baixas. Bandas onde o objetivo não é só contar países ou zonas, antes, o objetivo é o contato em si. Luta-se pelo QSO para alcançar distâncias inimagináveis em 80 ou em 160; esforça-se para escutar sinais fracos dentro do QRN que judia dos tímpanos; concentra-se até a exaustão para copiar o indicativo, aos poucos, letra por letra até completá-lo. Ars per ars, a arte pela arte. Os DXers parnasianos não admitem concessões de qualquer espécie: inverter a ordem natural das coisas conseguindo o QSL sem ter feito o QSO; declarar uma operação QRP e operar com potências vinte vezes maiores; participar de contestes em categorias não-assistidas e operar com o cluster à sua frente ou, pior, participar de competições sem ao menos estar presente na sua estação. Essa gente, essa espécie de gente, esses foneiros, não passam de repentistas de feiras-livres, não conseguem o respeito da comunidade, faltam-lhes muito, faltam-lhes talento e capacidade, sobram-lhes apenas o desejo de subir o Olimpo, reservado apenas para aqueles que não fazem concessões: os parnasianos.
73 DX de PY2YP - Cesar

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Experimentações Teóricas

Um dos maiores, senão o maior, problema no projeto de antenas é o tamanho físico resultante. Não há como escapar: mais ganho = mais tamanho. Aqui tamanho é documento, é inexorável. Não existe mágica o tamanho de uma antena para as bandas de 80 ou 160 metros será sempre muito grande. Bem, pelo menos esta é a regra decorrente dos livros de física.
Há vários anos, quando estava projetando o meu sistema para 80 metros, tentei reduzir o tamanho do mostrengo mas foi tudo em vão. Fiz o projeto seguindo os preceitos básicos e tudo funcionou dentro do esperado, mas em termos físicos o resultado foi uma antena ocupando cerca de 4.000 metros quadrados o que é um insulto ocupacional. Apesar do excelente desempenho da 4 square não desisti da busca de algo mais compacto, sem prejuízo do desempenho, e talvez com algum ganho adicional. Se as leis da física não permitiam a redução do tamanho, em detrimento do ganho, imaginei que a química pudesse dar alguma contribuição à solução do problema, afinal as leis agora passam para a circunscrição da físico-química, o que pode, em tese, significar um avanço.
A energia emitida por uma antena é gerada no entorno, na superfície, do elemento irradiante, isto é lei da física e imutável, mas, se excitarmos um gás ou uma mistura de gases poderemos ter essas irradiações em camadas concêntricas, como se fossem tubos montados um dentro do outro, e portanto a energia irradiada poderá ser multiplicada pela energia gerada nas camadas inferiores diminuindo o comprimento físico e adicionando um ganho, se fossemos utilizar o jargão do mercado financeiro poderíamos denominar de operação alavancada. Ora, o momento angular de um corpo é a grandeza física associada à rotação e translação desse corpo, assim, um corpo girando em torno do seu eixo, acaba por relacionar sua distribuição da massa com sua velocidade angular; por conseguinte a quantidade de movimento angular é a grandeza conservada sob rotações no espaço tridimensional, decorrente da sua isotropia, obviamente advinda de simetrias geométricas: quantidade de movimento linear, energia e quantidade de movimento angular. Com estes conceitos em mente, comecei a estudar o movimento angular dos íons resultantes de alguns gases que devidamente excitados em uma dada frequência pudessem responder linearmente, e em camadas, durante um tempo indefinido, isto é, uma vez excitados conservariam o momento angular e a distribuição em camadas até a interrupção da energia aplicada. Vale lembrar que a ionização do gás só acontece com potências superiores a 800 watts aplicados no conector da antena, não é na saída do amplificador. A contra-partida disso são as variações isotérmicas resultantes da excitação do gás sob as elevadas tensões da RF aplicada; segundo a lei de Huyghens nas colisões elásticas entre as moléculas o produto da massa pelo quadrado da velocidade permanece constante; desta forma, a adição de um sal ionizante proverá à mistura um fator para arrefecimento sem reduzir o número de íons livres. Depois de muito estudo teórico e muita simulação foi chegada a hora de montagem do primeiro protótipo. Os resultados iniciais foram animadores, alguns gases realmente se comportaram como esperado mas com várias falhas para o fim a que se destinavam. Depois de várias simulações teóricas consegui a mistura que respondeu às minhas expectativas: manutenção das características fisico-químicas após a redução de volume, manutenção do momento angular sob variações intensas de temperatura e principalmente a estabilidade da frequência resultante. Este último ponto era crucial e foi o que demandou mais experimentos, afinal, a variação da frequência ressonante sob quaisquer determinantes poderia prejudicar a relação de ondas estacionárias. A mistura de gás resultante é composta de xenônio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e bário; as proporções de xenônio e os sais de peróxido de bário, foram fundamentais para o estabelecimento do intervalo de variação de temperatura em níveis térmicos aceitáveis e, principalmente, garantido a linearidade das isotermas, por outro lado a adição de fósforo garantiu a formação de camadas concêntricas permitindo a geração de energia em camadas na mesma dimensão linear. A mistura final foi batizada de Xenóphobo por conta dos símbolos dos elemento químicos dos componentes: Xe, N, O, PH e B.
O software utilizado nas simulações foi o NEC5 (Numerical Eletromagnetic Code) versão 5.2 cujos cálculos são baseados no método dos momentos aplicados às modelagens por segmentos de fio ou por segmentos de área; esta versão só trabalha em ambiente Unix sem interface gráfica, apenas por linha de comando. Para operar as simulações de momentos em volumes compartimentados específicos foi utilizado um addon escrito pelo russo Lev Yashin, UA1KGW, professor de geometria tridimensional da universidade de Leningrado. Depois de várias simulações uma antena yagi de 3 elementos para 14.175 kHz foi configurada com os elementos em 1,80m afixados numa gôndola de 2,73m. O ganho frontal é de 10,83 dBi e a relação frente x costa de 28,3 dBi. O comprimento dos elementos é constante variando-se apenas as quantidades de fósforo e peróxido de bário no refletor e no diretor.
O protótipo foi montado com lâmpadas fluorescentes usadas presas em ripas de madeira. Os elementos e gôndola são interligados com fios nas configurações clássicas das yagis. O gás resultante apresentou impedância de 198 ohms exigindo um balum 4:1 para seu casamento com a linha de alimentação. Foram adaptadas válvulas pneumáticas nas pontas das lâmpadas para inserção e retenção do gás. Os gases componentes da mistura foram todos com teor de pureza superior a 99% e adquiridos junto a um fornecedor de gases industriais. O desempenho do protótipo foi excepcional principalmente na recepção onde a total ausência de elementos metálicos reduziu a sensibilidade à captação de ruídos externos, principalmente dos famosos ruídos de linha devido ao nulo obtido pelo diferença angular entre o vetor preponderante da rotação molecular do gás e o vetor do ruído elétrico; a sensibilidade de recepção ficou melhor do que -165 dBw. Infelizmente o protótipo teve que ser desmontado devido a precariedade da montagem e do risco de queda. Não pretendo montar outra antena para 20 metros mas o projeto está a disposição dos interessados.
A redução física do elemento irradiante me animou a um novo projeto que se encontra atualmente em fase de testes: um array de 8 verticais para 80 metros com altura de 8,96 metros cada. A configuração geométrica é composta de 2 quadrados concêntricos, o interno com 8,96m de lado e o externo com 26,88 metros de lado o que me permite utilizar os 5.000 metros de radiais existentes da 4 square de torres. Com os gases corretamente configurados a antena trabalha com 7/8 de onda apresentando ganho frontal de 9,6 dBi e relação frente x costa de 30 dBi com ângulo de saída em 16 graus. Os tubos estão em PVC de 250mm de diâmetro para diminuição do Q de entrada e consequentemente estacionárias mais baixas nas extremidades da faixa, a exemplo do que acontece com as verticais em torre; os tubos deverão ser quimicamente tratados devido à pressão osmótica do gás quando submetido a 1.5 kW. A potência ideal de operação é em torno de 1.200 watts onde a ionização é excelente e a temperatura se mantém relativamente estável mesmo em câmbios longos. Não foram testados comunicados em RTTY onde as simulações teóricas indicam um nível de potência entre 800 e 900 watts, próximos ao limite inferior da banda de potência ionizante.
Ainda falta muito para resolver todos os problemas mecânicos, armazenamento de gás e outras dificuldades para montar um sistema que tenha durabilidade, estabilidade e outras necessidades operacionais, mas os resultados são animadores. Se eu obtiver sucesso nesta configuração o próximo passo será um array de verticais para 160 metros com ganho frontal da ordem de 6,5 dBi mas aqui os custos são um tanto quanto desanimadores e não poderei montar protótipos e antenas de testes, terei que montar o projeto em definitivo devido aos altos custos envolvidos.
Concluindo, é possível reduzir o tamanho físico do elemento irradiante e dos parasitas, mas o volume de gás equivalente será sempre o mesmo; o componente de maior custo é o gás, porém ao aumentarmos a pressão para manutenção do volume equivalente, conforme nos ensina sir Robert Boyle, os custos de retenção do gás aumentam exponencialmente devido a vazamentos e tensões osmóticas incidentes, assim, penso que a relação ideal entre volume e custo deva estar da ordem de sessenta e cinco por cento de redução o que já um valor expressivo.
Os interessados nos projetos podem solicitá-los por e-mail cujo endereço consta do meu site, será um prazer compartilhar os resultados obtidos.
73 DX de PY2YP - Cesar

segunda-feira, 18 de março de 2013

With a little help

Uma das maiores dificuldades no aprendizado da língua inglesa é, sem a menor de todas as dúvidas, a utilização das preposições, as regras são imprecisas e nas mais das vezes inexistentes. Pior, uma preposição justaposta a um verbo altera radicalmente o seu significado conferindo-lhe nova conotação, são os chamados phrasal verbs, por exemplo: to give = dar; give up = desistir; give in = aquiescer. Apenas este tópico já é capaz de levar o aluno ao destempero porque a lista é longa, muito longa; já com as preposições este estágio é ignorado indo direto ao desespero.

Ali pelo meio da década de 60 um tal de Joe Cocker escreveu uma musiquinha que era tocada a toda hora nas festas do centro acadêmico da escola de engenharia. Quando os Beatles a gravaram o sucesso foi total, detonou. Tinha um refrão assim: Ooh, I get high with a little help from my friends; Yes I get by with a little help from my friends. O verbo to get sofre alteração com a preposição by e passa a significar conquistar, conseguir. Por outro lado, get high, significa ficar chapado, em estado de euforia. O refrão da musiquinha ficava na cabeça por dias de tanto tocarem, um porre.

Em agosto do ano 2000 apareceu no ar a estação FR/F6KDF/T da raríssima ilha de Tromelin um dos países mais bravos do DXCC ao lado dos demais integrantes da terrível França Austral: FR/G, FR/J, FT5W, FT5X e FT5Z. Além de poucas operações a propagação para aquelas bandas, principalmente nas frequências altas, é ruim e precisa de muito fluxo solar, enfim, uma região difícil. A expedição a Tromelin operou em RTTY pela primeira vez e o pile-up, como não poderia deixar de ser, era feroz; o pessoal nessa modalidade praticamente só opera de 20 metros para cima colocando os brasileiros em situação ainda mais difícil, pior, em 10 metros é melhor esperar pela morte, mesmo com fluxo alto a propagação norte-sul favorece os europeus e nos deixa à margem de qualquer chance. No código postal da França os dois primeiros dígitos indicam o departamento, uma divisão administrativa: o de número 91 é de Essonne, 92 é Hauts-de-Seine, o de 94 é de Val-de-Marne e assim por diante. Finalmente a estação FR/F6KDF/T apareceu em 28.070 e trouxe junto um pile up intransponível; de intervalos em intervalos o operador transmitia: QRZ DE FR/F6KDF/T ESSONE e os franceses que já sabiam do esquema transmitiam em 28.091 para serem atendidos; outro intervalo e ele mandava QRZ DE FR/F6KDF/T HAUTS-DE-SEINE e novamente os franceses eram atendidos, agora em 28.092. Do lado de cá os brasileiros apanhavam muito no meio do pile-up nas imediações de 28.080 sem a menor chance de conseguir o QSO. Um desses brasileiros ao ver os departamentos, lembrou-se do código postal da França, onde havia morado durante anos, e quando ouviu QRZ DE FR/F6KDF/T VAL-DE-MARNE chamou em 28.094 e foi atendido; ao que me lembro foi um dos únicos PY a trabalhar Tromelin em RTTY. O entendimento do esquema para a pequena ajuda aos amigos franceses foi crucial.

Há alguns dias saiu no ar H44KW que era novo para mim nas bandas WARC. A propagação ruim e o meu dipolo rígido, fixo para os lados da Europa, me faziam desconfiar que a pancadaria seria grande. Em épocas como esta que estamos atravessando com sinais marginais, escutar com outra antena que não a da banda pode ser a diferença entre escutar o DX ou não, seja pelo ângulo de chegada dos sinais ou pela redução do ruído; o motivo não importa, basta que o sinal chegue. Para conseguir se safar em situações complicadas o canivete do DXer deve ter muitas lâminas, uma para cada situação, o meu tem várias. Em 30 metros só consegui escutar ao final da tarde e assim mesmo com a 4 square de 80 metros, pelo dipolo ele não chegava; surpreendentemente trabalhei após somente 9 chamadas. Em 17 metros eu fiz pela manhã ouvindo com a antena de 40 depois de apanhar bastante. Em 12 metros só conseguia ouvir com a yagi de 10 metros, o pobre dipolo não foi capaz de escutar uma única vez, mas com ajuda do linear até que dava conta do recado na transmissão. Para comutar as antenas eu uso uma chave programável da Hamplus que já me deu inúmeros países em situações idênticas a esta. O chaveamento entre as antenas de RX e TX é feito automaticamente sem o perigo de inverter e queimar algum equipamento; além disso, no caso das yagis, a chave comutadora leva o rotor correspondente à antena utilizada: basta mudar a banda no transmissor para o dispositivo levar antena e rotor para a nova banda. Esses caras da Hamplus são realmente bons, a chave vale cada centavo. A próxima aquisição será um linear em estado sólido com mudança de banda igualmente automática; quando cair um spot com um país novo um clique de mouse no software de log levará rádio, antena, rotor e linear para a frequência do DX. Wow!

Em 24.896 o pile-up europeu não dava chance; comecei a ouvir o H44KW por volta das 07:30 local e fiquei chamando até as 08:10 quando fui intimado a deixar o rádio e ir tomar o café, a cristal foi inflexível: "se não vier agora vai ficar sem café, não farei outro". Algo estava me incomodando no pile-up: vez por outra, eu procurava a estação para quem o H44 estava voltando e não ouvia, mesmo abrindo o filtro. Havia algo estranho ali, algo muito estranho. Voltei para o pile-up às 08:25 e decidi não chamar, achei melhor ouvir o pile-up e ver se a "falha" do pile-up era apenas cisma ou se havia algum coelho nesse mato. Comecei a contar as estações que o H44 trabalhava e as frequencias para tentar descobrir algum padrão de comportamento: OK1QSL 2 kHZ acima; OH3QSP 2,080 kHz acima e assim por diante, mas no sexto QSO ouvi G4QRO 599 e nada do inglês. Nova contagem e no sexto QSO outro inglês e nada do sinal dele no pile-up. Outra rodada e no sexto QSO: GM4QRP e nada do escocês no pile-up. Ah ah! eis o padrão: o sexto QSO vem de uma frequência desconhecida, o problema agora passou a ser: onde os amigos se escondem? Coloquei o VFO do segundo receptor 8 kHz abaixo da frequência de transmissão do H44KW e nada, silêncio total, apenas um HA5 um pouco mais abaixo chamando geral. Contei novamente os QSOs e desta vez, no sexto, fui ouvir 10 acima e lá estava GW4QTC 599 TU. Pacientemente esperei pela nova rodada de seis QSOs e no tempo certo, 10 kHz acima, bati meu indicativo e ouvi o retorno: PY2YP 599 TU. Pronto, finalmente estava no log de 12 metros. Wow, I get high with a little help from my friends...
73 DX de PY2YP - Cesar

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Chordal propagation

Para mim o futebol é um desses esportes sem graça e sem sentido, não conseguia entender o porquê da sua popularidade, até que um amigo carioca me explicou que o futebol é um jogo interessante porque é imprevisível, é um dos poucos esportes em que o mais forte nem sempre ganha. Em todos os esportes, continuou ele, o mais forte vence sempre; um corredor com o biótipo e treinamento corretos nunca perderá para um competidor que não esteja à sua altura. É inexorável.
Da mesma forma, uma estação menos equipada e mais distante dos centros de geração de QSOs nunca fará mais pontos em um conteste do que uma estação bem localizada e com antenas grandes. Isto é igualmente inexorável. Por outro lado, uma estação QRP - não essas falsas operadas pelos ascendentes, egressos da banda cidadã, que por profundo desconhecimento e ignorância pensam que conseguem nos enganar - mas as QRP de verdade, de operadores sérios, poderão trabalhar com mais facilidade um país difícil do que uma estação potente e com antena grande, claro, em horários diferentes. Basta alguma dedicação e muita experiência para estar na hora e na banda certa.
Aconteceu recentemente, a estação T6LG apareceu no ar disposta a dedicar boa parte do seu tempo nas bandas baixas. No início com problemas terríveis na sua recepção mas que foram solucionados com a inestimável ajuda do Zé Carlos, N4IS, que mandou não só o projeto mas todo o material para que o Ilian montasse uma antena de recepção decente e pudesse operar 160 e 80 metros.
Aqui em São Paulo, minha estação não chega ao ponto de dar pena, mas em 80 metros o V invertido e o alto nível de ruído me colocam em uma situação precária, para dizer o menos. Ao ficar sabendo que o Ilian havia conseguido melhorar sua recepção decidi que já era tempo de ir à sua caça com mais seriedade, até mesmo porque os rumores diziam que T6LG iria desligar tudo em fevereiro e já estávamos no final de janeiro.

São Paulo, 26 de janeiro de 2013, sábado
Os meus cálculos transcendentais, heurísticos e metafísicos diziam que as chances maiores de conseguir trabalhar o T6 seria poucos minutos depois do seu amanhecer, por volta de 02:50Z. A hora exata eu não tinha como saber por desconhecer as coordenadas da sua localização, mas deveria ser por volta disso. A dormidinha no final da tarde me deu ânimo para ficar até mais tarde e finalmente colocar no log um país realmente difícil. Vim para a estação por 22:30 (00:30z) mas o que escutava era apenas muito barulho, aquele ruído terrível de ovo frito; apesar disso decidi não mudar de banda, afinal foco é tudo o que precisamos para não deixar escapar um DX desse calibre. A insistência deu resultado, por volta das 01:40Z escutei C6AJR chamando geral, dei uma acertada na sintonia do SB-220 e consegui o QSO. Nada mau, país número 282 em 80 metros, mesmo sendo um país relativamente fácil, mas como eu não tinha, para mim era difícil. Mais um pouco e aparece chamando geral TR8CA que eu também não tinha. Wow! Algumas chamadas e o 283 vai para o log. Os dois países novos me deixaram realmente feliz e achei que se eu conseguisse trabalhar T6 poderia ter overdose de adrenalina. Por volta das 02:45z desliguei tudo e fui dormir. Grave erro, ele apareceu com sinais razoáveis na hora certa e alguns PY o trabalharam.

São Paulo, 27 de janeiro de 2013, domingo.
Profundamente irritado com o meu erro vim para o rádio na hora da propagação, mas nada do T6. Dois ou três minutos depois do horário calculado para o pico comecei a desligar tudo para ir dormir, mas o rádio é a última coisa que se desliga, e... que diabos é isso em 3.504? CQ CQ de $#&G $#L&. É ele! Liguei o linear e chamei duas vezes mas ele voltou para um americano, K4 alguma coisa. Termina o QSO e ouço claramente QRZ DE T6LG 1 UP o sinal firme em S8, chamo duas vezes e nada. Ele insiste: QRZ DE T6LG 1 UP chamo novamente e nada. Novo QRZ dele, chamo mas não consigo chegar. Ele também não volta, aparentemente fez QSY ou desligou. Uma estação que chama geral e faz um único QSO deveria ter sua licença cassada.

Indaiatuba, 28 de janeiro de 2013, segunda-feira.
Resolvi tudo o que precisava em SP e depois do almoço fui para Indaiatuba. Aqui a conversa é outra, as 4 torres da 4 square costumam resolver qualquer problema, mas, é preciso que ele apareça. Para que um QSO seja válido, é preciso que as duas estações se comuniquem entre si, embora um ou outro "DXer" (as aspas indicam descaso) consiga confirmar países cabeludos sem que a outra estação sequer tenha antena.
Os sinais estão miseravelmente pequenos, ruído forte, não havia como furar o pile-up. Vez por outra escutava um pê no final da transmissão, mas desgraçadamente o pê era de up e não de YP. No horário de pico escutei: PY??, chamei mas ele não me escutou. Nada. Depois do sunrise dele fui dormir, estranhamente o pico não foi tão pronunciado após o nascer do sol.

Indaiatuba, 29 de janeiro de 2013, terça-feira.
O Ilian apareceu no horário certo e por volta às 02:37z ouvi nitidamente PY2CP DE T6LG 599. Mandei correção e a reportagem, mas logo o sinal caiu e não copiei mais. Fui dormir muito incomodado com o CP, não havia ouvido a correção de volta. No dia seguinte mandei um e-mail para o Ilian e ele me respondeu:
Dear Cesar,
Unfortunately you are not in my log. I have only one SA contact today with HC2SL. I will be on 80m daily, please keep on trying! Thanks!
Regards!
Ilian, T6LG

Bem, pelo menos estou chegando perto, na segunda-feira copiou PY2, na terça PY2CP...

Indaiatuba, 30 de janeiro de 2013, quarta-feira.
Mera repetição do dia anterior. Sinais fracos e impossibilidade total de conseguir o QSO. Pensei com meus knobs: “Isto está a exigir providências mais drásticas: pinga, galinha preta e velas na esquina ao lado me parecem medidas adequadas.”
O pessoal experiente em banda baixa sabe que existem duas oportunidades para conseguir o QSO: no nosso entardecer ou no amanhecer do DX, isto para os países localizados a leste da nossa região; para os localizados a oeste é ao contrário. É regra geral que os picos de sunrise são sempre melhores do que os picos de sunset, isto porque no pico de sunrise ocorre um fenômeno conhecido como chordal propagation. Logo após o nascer do sol, a ionosfera, a leste da estação, começa a ionizar rapidamente formando um espelho côncavo com um formato parecido com o sinal de parênteses ")". Quando a estação de DX fica no foco dessa parábola os sinais dão um pico e conseguimos o QSO; o problema é que esse pico tem curta duração, em alguns casos mal dá para terminar o QSO, mas em geral dura em torno de 3 ou 4 minutos, É esse fenômeno que nos dá vários países.

Indaiatuba, 31 de janeiro de 2013, quinta-feira.
O mês está chegando ao fim e a preocupação aumenta. Fica a pergunta: o Ilian encerrará sua operação em qual dia de fevereiro? É bom lembrar que dia primeiro também faz parte do mês. Oh ralhos!
Vim para a estação e fico um bom tempo corujando as frequências habituais dele: 3502, 3504, 3507 e 3511, finalmente ele aparece em 3507, sinais pequenos mas melhores do que os dois últimos dias. Depois de uma hora de briga, precisamente às 00:16z consigo ouvir clara e perfeitamente: PY2YP DE T6LG 599 599. Passo o indicativo a reportagem e pronto: estou no log! A tensão desaparece imediatamente e decido tomar um gole de anti-depressivo tarja preta, twelve years, of course. Afinal não é todo dia que se trabalha Afeganistão em 80!
Passei o restante da semana em RTTY, embora o log dele não estivesse sendo atualizado, não me preocupei mais com o T6 Eu tinha convicção absoluta de que o QSO estava perfeito.

Indaiatuba, 02 de fevereiro de 2013, sábado.
Vim para a estação ali pelo meio da tarde, abro os e-mails e leio:
Hi Cesar,
I will be QRV on 80m after 22:00Z, so I will be waiting for you!
Regards!
Ilian, T6LG

Terrorista! Esse senhor deveria estar preso por falsidade ideológica. Como não me colocou no log? O QSO foi gramático: mais que perfeito! Foi com um sentimento de culpa por ter comemorado antes de ver o log que entrei em 80 metros por volta das 22:00 zulu. A esta hora as chances são ridículas e para agravar a situação a configuração da 4 square tem um vale nos lóbulos de irradiação entre as duas torres NE e SE bem na direção da zona 21. Na direção do vale o ganho da antena cai para menos da metade. O Ilian realmente apareceu mas um pouco mais tarde e depois de muito apanhar fui para o log exatametne às 02:25z. Desliguei tudo e fui dormir pensando: “se eu não estiver no log mudarei de hobby”. No domingo antes de voltar para SP recebo um e-mail dele:
Hi Cesar,
I am so sorry I forgot we already worked. I logged you today too. Thanks
for contacts, and excuse me, but too many emails and requests and I am
really confused. QSOs will be upload to LoTW very soon.
Thanks!
Ilian, T6LG

Na semana seguinte algumas estações de SP com configurações modestas trabalharam T6LG no horário de pico, sem a menor dificuldade, sem pressões, sem pile-up, sem ruído e com sinais fortes. Isto, igualmente, poderia ter acontecido comigo logo no dia 26 se eu tivesse permancido no rádio mais 5 ou 10 minutos, mas nesse caso eu não teria este caso para contar.
73 DX de PY2YP - Cesar

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O zumbi

A morte é um dos fenômenos fundamentais do universo. Ela acontece para todas as criaturas quando a capacidade de adaptação do frágil e miraculoso microcosmo das células e das moléculas de proteínas, as quais denominamos de organismos vivos, sucumbe perante as agressões das forças externas ao ambiente celular. Simplificando: quando as forças externas aniquilam a capacidade de adaptação das células o resultado é a morte. Simples e definitivo.
O conceito da morte acompanha o da vida desde quando os primeiros hominídeos adquiriram consciência de que estavam vivos. A morte, pela sua inexorabilidade, desperta os mais diversos sentimentos nos humanos: fascinação, admiração, respeito, pena e medo. É esse medo que tem tangido os homens às religiões em busca de abrigo e proteção. O medo do desconhecido, o medo do que haverá após a morte. O medo de ter perdido a última chance em vida de ser alguém ou de ter deixado como herança um bem ou um exemplo a ser seguido. O outro lado do medo chama-se recompensa, o que faz com que os homens tentem se tornar bons para garantir uma vida eterna com conforto ao lado do Criador gozando as delícias celestiais para todo o sempre. E assim o homem vai levando a vida à espera do inexorável Juízo Final (em maiúsculas para ficar mais solene), mas sempre tendo em mente que poderá ser perdoado pelos seus erros, pelas suas falcatruas ou pelos seus pecados. Desgraçadamente o equilíbrio entre a virtude e a safadeza é tênue e pode ser rompido a qualquer instante. O comportamento ao longo da vida oscila entre esses dois bastiões comportamentais, um leva à glória, o outro à desgraça. Um leva ao paraíso, o outro ao inferno.
Conta a lenda que um conhecido DXer graças às suas boas antenas e recursos materiais galgou uma posição de respeito ímpar perante seus pares; todos o admiravam, afinal seus feitos eram dignos de nota: score elevado no DXCC; WAZ; WAS; o primeiro do mundo ao falar com todas as aldeias da Alsácia; o primeiro do mundo a falar com todos os oblasts, além de vários outros feitos importantes. Dizem os antigos que a menor das válvulas que ele usava na sua estação exigia duas mãos para carregá-la, dessas válvulas que têm alças para facilitar o manuseio. As suas gigantescas antenas permitiam fazer comunicados em horas improváveis para a banda. Os horários eram impossíveis para os pobres mortais com antenas de fio e recepção ruidosa, para ele os QSOs saiam da zona do impossível e entravam na zona do improvável, mas mesmo assim, ninguém ousava duvidar. Os mais experientes diziam simplesmente: impossível não, apenas improvável, mas com as antenas dele talvez tenha sido feito. E lá iam os cartões aparecendo em horários improváveis para bandas baixas, muito depois da camada D ter sido formada; outros com estações que nunca operaram, numa ou noutra banda; outros em bandas que não foram operadas pelas expedições. Estes últimos continuavam na zona do impossível, não conseguiam ir para a zona do improvável por razões óbvias. E ele seguia seu caminho com QSOs verdadeiros misturados aos inexistentes, misteriosamente comprovados.
Ao que se sabe esse DXer tinha suas células radioamadorísticas irrigadas pela mais pura RF, mas, infelizmente a RF não tinha sido suficiente para irrigar suas células cerebrais. Certa vez, perguntado por um de seus pares como havia conseguido ouvir uma estação da dificílima zona 29 ele respondeu: "eu tenho uma beverage de 750 metros apontada para a Cidade do Cabo." De fato, olhando no mapa mundi a zona 29 fica mais ou menos nessa direção, porém, desgraçadamente a Terra é redonda e o sinal de RF não obedece a projeção de Mercator. Até para mentir é preciso um mínimo de conhecimento, de inteligência. Alguns dos QSLs recebidos eram muito estranhos, como se houvessem sido alterados.
O fato é que a RF em excesso dentro do shack bombardeando seguidamente as células cerebrais, que já não eram tão abundantes assim, acabou por tirar-lhe os últimos resquícios de resistência das células responsáveis pela seriedade, caráter, honra e outros componentes morais que fazem do DXer um homem de bem. Esse contínuo e implacável bombardeamento de RF acabou por vencer a capacidade de adaptação e sobrevivência das células e dos neurônios, a esta altura em franca decadência, até que finalmente o DXer morreu, morreu a pior das mortes, a morte incompleta, daqueles que mesmo mortos estão condenados a perambular e assombrar os outros. E assim tendo se tornado um morto-vivo, um zumbi, permanece entre nós, insepulto e assustador, uma caricatura grosseira do que fora outrora. Seus QSLs já não trazem respeito nem glória, seus diplomas nada valem, não passam de papéis coloridos que impressionam apenas um ou outro visitante desavisado, seus pares há muito não o respeitam.
73 DX de PY2YP - Cesar
Post scriptum: Isto é um conto de ficção. Qualquer semelhança com algum DXer terá sido mera obra do acaso.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sem chance

Toda vez que termina uma operação grande como esta de ZL9HR recém encerrada eu fico como se estivesse de ressaca de um daqueles porres homéricos: dor de cabeça, sede contínua, dor no corpo além de alta intolerância a ruídos e sons ligeiramente acima do nível de um sussurro. Talvez esse estado seja decorrente das noites mal dormidas, levantando diariamente pelas quatro horas da madrugada, pela audição continuada de telegrafia, da irritação da bagunça em fonia, talvez pela tensão trazida pelos fluxos solares insuficientes ou quem sabe pela frustração das bandas não trabalhadas.
Entende-se como gray-line a linha que separa a zona clara da zona escura ou vice-versa; temos, portanto, duas zonas de gray-line uma ao alvorecer e outra ao entardecer. Os sinais que percorrem essa linha, são muito fortes e podem trazer QSOs inacreditáveis. Mas é bom que fique claro que não são sinais perpendiculares ou oblíquos a essa linha e sim unica e exclusivamente ao longo da linha de gray-line. Esta confusão é muito comum entre os DXers mormente entre os ascendentes, aqueles que ainda não desvendaram os mistérios das bandas baixas. Os sinais perpendiculares à linha de gray-line se beneficiam de outro fenômeno conhecido como chordal propagation cuja discussão fica para outra oportunidade.
A linha de gray-line na verdade é uma faixa, sub-dividida em 3 zonas, cujas larguras são medidas em tempo e começam quando o sol se encontra a -18º, -12º e -6º de elevação, isto é, 18, 12 e 6 graus abaixo da linha do horizonte e termina quando o disco solar está inteiramente visível no horizonte, ao amanhecer, ou inteiramente oculto ao entardecer. Essas três zonas recebem os nomes de astronomical, nautical e civil twilight, ou em bom português: crepúsculo astronômico, náutico e civil. Para efeito de rádio, principalmente nas bandas baixas, a zona de gray-line que funciona bem é quando o sol está a pelo menos 12º abaixo do horizonte até alguns minutos após o efetivo término do gray-line dependendo de alguns outros fatores como o nível de condutibilidade do solo onde se encontra a estação. Obviamente, ao entardecer, o fenômeno começa um pouco antes, dependendo, igualmente, das condições do solo; quanto mais condutor for o solo, mais cedo começa ou mais tarde termina o gray-line de rádio. Eu disponibilizei no meu site uma ferramenta para o cálculo das efemérides solares e estabeleci para o gray-line o crepúsculo náutico.
Entre São Paulo e Campbell só acontece escuro nas duas pontas entre 18 de março e 27 de setembro; entre 13 de novembro e 07 de fevereiro tem luz direta nas duas pontas e não tem mais possibilidades confiáveis de QSO em 80 e 160 metros, claro, considerado aí nessas datas a latitude de São Paulo. Para outras latitudes há que ser refazer os cálculos.
Infelizmente a operação de ZL9HR teve início às 05:00 UTC do dia 01 de dezembro de 2012, fora portanto da janela de escuridão nas duas pontas, 17 dias após o último dia de gray-line. Se os operadores pudessem estar ativos no gray-line desse dia primeiro de dezembro, teríamos tido alguma possibilidade de QSO mesmo em condições marginais. Para esse dia os cálculos mostram que a linha de path estava com afastamento de 9 minutos do último instante do gray-line, sol fora do horizonte em São Paulo e inteiramente oculto em ZL9. O afastamento de 9 minutos ainda poderia dar oportunidade de QSO porque o path pelo sul não encontraria formação da camada D em condições ideais de bloquear os sinais, mas o ZL9HR não apareceu nesse dia. A cada dia que passa há que se somar mais de 1 minuto no afastamento do path em relação ao gray-line e cada minuto é crucial porque a camada D já começa a se formar na ponta de PY2 e pode bloquear os sinais, alias, 9 minutos já é um número elevado para a nossa latitude. O Fred PY2XB bem que tentou fazer com que os operadores aparecessem à essa hora do dia, mas eles só o atenderam na segunda semana quando o afastamento já estava na ordem de 14 minutos inviabilizando totalmente a chance do comunicado acontecer. Uma pena. Vamos torcer para que alguém apareça em Auckland ou Campbell pelo mês de fevereiro quando ainda não está frio assim e o possamos colocar no log. Well, o jeito foi desengarrafar o antidepressivo tarja preta e comemorar os QSOs em 12, 17 e 30 metros além de RTTY. Até que não foi tão mau assim.
73 DX de PY2YP - Cesar